Ricardo Campos pensou que a filha tinha morrido. Quando sai de uma reabilitação, Milena, a mulher, já não tinha barriga. Na IURD, havia ordem para não revelar que aquele bebé estava na família de um importante bispo.

“Eu não tenho nada do senhor, mas o senhor tem aquilo que é meu… Sabe porque é que eu fiquei calado estes anos todos? Porque o senhor é poderoso e a corda parte sempre para o mais fraco!”, desabafa Ricardo.

Ricardo trilhou um longo caminho até aqui chegar. Quando se apaixonou por Milena, mãe biológica de Raquel, decidiu avançar para uma desintoxicação.

Sozinha, Milena estava numa encruzilhada: grávida, com duas filhas pequenas de outra relação e sem emprego.

“Recorreu à igreja numa altura em que estava quase no final do tempo. Não tinha dinheiro para comer… Na altura foi abordada no sentido de alguém tomar conta da filha que nascesse”, conta “Fátima”, ex-funcionária da igreja.

E Milena confiou. Dia 7 de julho de 1994, dá à luz uma menina na maternidade Alfredo da Costa, conforme documentos a que a TVI teve acesso, e é Alice que vai buscar a criança à maternidade, com apenas dois ou três dias de vida.

Ex-funcionárias do lar que a TVI confrontou contam que a menina esteve um dia ou dois na instituição, tendo sido logo levada para a casa do bispo João Luís. Registam a criança como se fossem os pais biológicos e ela tivesse nascido em casa. 

O bispo e a mulher dão emprego à mãe na igreja e prometem ajudá-la. Uma história que se tornou um segredo dentro da igreja e que foi repetido ao próprio pai, que, quando voltou da desintoxicação, pensou que a bebé tivesse morrido.

Os documentos do nascimento de Raquel 

O registo de Raquel, a que a TVI teve acesso, mostra que nasceu exatamente no mesmo dia e à mesma hora que a filha que Milena deu à luz: 7 de julho de 1994, às 12:35, uma menina com 2,7 quilos.

Os registos informáticos de mãe e filha terão sido apagados do sistema, mas a TVI conseguiu ter acesso ao livro da sala de partos. Trata-se de um documento em papel, que é a única prova de que Milena de Fátima Castro foi mãe de uma menina.

Facto é que Milena nunca registou esta filha na Conservatória do Registo Civil, o que é obrigatório por lei.

A TVI procurou a mãe de Raquel, em Portugal e no estrangeiro, para ouvir o seu testemunho, mas Milena parece ter desaparecido.

Já o pai, Ricardo, ficou refém de uma mentira. Entrou na igreja como crente, rapidamente subiu a pastor e foi num culto em Sacavém que acabou por saber a verdade, pela boca de outro pastor. 

Com o casal dependente financeiramente da igreja, estava criada a situação ideal para que este assunto fosse silenciado.

A vida de Raquel na IURD

 

Raquel cresceu sempre na igreja. Aos 13 anos, vai para o Brasil e torna-se uma adolescente perturbada e confusa. É a própria que confessa que fez várias tentativas de suicídio.

Ainda jovem, com apenas 20 anos, casa com um pastor da Universal responsável de uma pequena igreja no interior do Brasil.

Raquel é então usada para passar o seu testemunho errante com vista a conquistar fiéis.

“Hoje eu sou uma pessoa completamente diferente. Sou obreira, sinto amor pelas almas e sei o que é ser uma mulher que agrada a Deus.”

A mais de 7 mil quilómetros de distância, o pai Ricardo fala diretamente para a filha através da TVI, porque só a quer conhecer.

O desejo de Ricardo e de outros pais e mães é igual: ao fim de 20 anos, conhecer os filhos que lhes foram roubados.