O Presidente da República comentou esta quinta-feira a atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan considerando-a um "sinal claro de que os tempos estão a mudar", numa referência à canção "The Times They Are a-Changin'".

Marcelo Rebelo de Sousa escolheu esta canção de Bob Dylan, que saiu num álbum com o mesmo nome em 1964, para título da mensagem que divulgou na página da Presidência da República na Internet, em reação à distinção do compositor e cantor norte-americano.

O Presidente da República, evocando a sua juventude, não pode deixar de se associar a esta homenagem, inesperada mas significativa, com a atribuição do prémio Nobel a Bob Dylan, alguém que para além da riqueza das suas letras se notabilizou pelas sua músicas, sinal claro de que os tempos estão a mudar...", lê-se na mensagem.

O ministro da Cultura disse que a atribuição o Nobel da Literatura a Bob Dylan “é o reconhecimento de um grande poeta que alia de forma exemplar a palavra e a música numa inteira expressão poética”.

Para Luís Filipe de Castro Mendes “a atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan é o reconhecimento de um grande poeta que alia de forma exemplar a palavra e a música, numa inteira expressão poética”.

Segundo o ministro da Cultura, o poeta e compositor norte-americano, de 75 anos, “tornou-se voz de várias gerações e os seus poemas cantares dos tempos de mudança”.

O músico Sérgio Godinho elogiou a escolha do músico, porque tem sido "absolutamente um desbravador na canção americana".

Foi uma grande surpresa, mas fico muito contente. Vem de uma tradição 'folk', do Woody Guthrie, depois começou a descobrir outros caminhos, passou pela canção política, pela canção vivencial, pelo surrealismo e é extremamente moderno", disse Sérgio Godinho.

O compositor português não considera Bob Dylan uma influência direta no seu percurso na música, mas explicou: "É uma influêncuiia indireta. Quando o oiço apetece-me compor e isso acontecia-me também, por exemplo, com Zeca Afonso".

Sérgio Godinho considerou justa a atribuição do prémio a uma figura que não faz parte do meio literário habitual.

Ele é um escritor de canções, influência para várias gerações de músicos e esssa arte deve ser premiada", disse.

O jornalista e investigador Luís Pinheiro de Almeida afirmou a atribuição do Nobel da Literatura ao músico norte-americano "é merecidíssimo, só vem é tarde".

Embora ele recuse ser o porta-voz de uma geração, foi um porta-voz através da sua poesia bela e há quem diga que ainda bem que foi atribuído a Bob Dylan, porque assim vai-se falar de literatura e eu digo o contrário: Vai falar-se de Bob Dylan, nem que seja para dizer bem. Ele merece-o", disse.

O escritor Miguel Esteves Cardoso considerou que Bob Dylan, distinguido com o Nobel da Literatura, é há muitos anos referenciado como “um génio da literatura mundial”.

Não há surpresa nenhuma, porque o Christopher Ricks, que é um grande crítico académico e professor de poesia, já defende Dylan, há quase 40 anos, como um génio da literatura mundial, numa obra sua de 2003, ele afirma que Dylan está à altura de Shakespeare e do Philip Larkin”, afirmou Miguel Esteves Cardoso, em declarações à agência Lusa.

Há uma corrente crítica muito, muito profissional, estamos a falar de professores de Literatura altamente qualificados, os maiores professores de Literatura do mundo, que sempre defenderam Bob Dylan, e com razão”, rematou o escritor.

Esteves Cardoso considerou que a Academia Sueca tem vindo a revelar uma atualização. Desde que no ano passado atribuiu o Nobel da Literatura à jornalista bielorrussa Svetlana Aleksievitch, que “a partir das entrevistas faz aqueles encadeados extraordinários, acho que as canções do Dylan, que escreveu uma autobiografia extraordinária, têm tantas personagens, tantos enredos, tantas histórias, tantas imagens fabulosas, que fazem parte da Literatura, não há nenhuma dúvida”.

A Academia Sueca está a fazer é uma coisa espantosa, porque sem ninguém perceber a Literatura dividiu-se numa data de secçõezinhas de merda – a poesia de um lado, teatro, a ensaística, ficção -, quando o que interessa é a escrita, incluindo a escrita oral”, argumentou.

O editor Francisco Vale, da Relógio d’Água, que publicou em dois volumes a poesia de Bob Dylan, de 1962 a 2001, afirmou que a atribuição do Nobel ao poeta e compositor foi “uma surpresa relativa”.

Foi uma surpresa relativa, porque havia outros escritores, mas o Bob Dylan é um grande poeta que soube inserir a poesia nas tradições musicais norte-americanas. Nomeadamente na pop e na folk”, disse à agência Lusa Francisco Vale.

Para o editor, esta distinção ao poeta e compositor norte-americano “só revela uma capacidade de atualização da Academia Sueca ao escolher um autor de canções, mas que é um grande poeta”.

O músico português Samuel Úria sublinhou que a "importância inacreditável" da atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan e assumiu a condição de fã ao dizer que "é como se tivesse ganho um familiar próximo".

É o maior escritor de canções, a maior figura da música popular, está num mundo à parte, tem uma importância increditável", disse o músico, 37 anos, que, tal como Sérgio Godinho, diz reconhecer influência indireta de Bob Dylan nas músicas que escreve.

Bob Dylan, nome artístico de Robert Allen Zimmerman, nascido em Duluth, a 24 de maio de 1941, foi hoje distinguido com o Nobel da Literatura, considerado o mais importante dos prémios internacionais de literatura.

O músico foi distinguido por "ter criado novas expressões poéticas no âmbito da música norte-americana", justificou a secretária-geral da Academia Sueca, Sara Danius.

Figura incontornável da música popular norte-americana, é o primeiro compositor a receber o prestigiado prémio da literatura, com um valor monetário de 822 mil euros.

Em 2015, o prémio foi atribuído à autora bielorussa Svetlana Alexievich.