A morte de cinco pescadores no naufrágio do arrastão Olívia Ribau, ocorrido na terça-feira à entrada do porto da Figueira da Foz, seria dificilmente evitável devido ao crónico desinvestimento no salvamento costeiro, afirmaram hoje estruturas sindicais.

Em comunicado conjunto enviado à agência Lusa, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Administrações Portuárias (SNTAP) e a Associação Sócio Profissional da Polícia Marítima (ASPPM) afirmam que um país como Portugal, "com aproximadamente 1.800 km de costa, não pode assegurar uma rápida assistência marítima sem dispor de Estações de Salvamento Costeiro devidamente guarnecidas, equipadas, treinadas e em prontidão imediata".

Na nota, as organizações sindicais relembram o naufrágio da embarcação Luz do Sameiro, ocorrido em 2006, "a 50 metros da praia da Nazaré", frisando que esse acidente "perante a inércia das autoridades" provocou a morte de seis pescadores e apenas um sobrevivente "e deveria ter resultado na inversão de paradigma, e não o retrocesso que se verificou" nos anos seguintes, acusam.

O SNTAP e a ASPPM estiveram reunidos na manhã de hoje "a refletir sobre as possíveis razões que levaram a uma prestação tardia do socorro aos tripulantes" da embarcação Olívia Ribau "naufragada a poucos metros da costa da Figueira da Foz" e apontam a "acentuada redução do pessoal" do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) que guarnece as 26 Estações Salva-Vidas existentes na costa portuguesa.

"Contam apenas com um efetivo de cerca 60 elementos, dos 130 que prevê o quadro atual, e com média etária acima dos 45 anos", alertam.


Dizem que existe uma "profunda negligência" da tutela do Sistema Nacional de Busca e Salvamento Marítimo "que tem relegado o investimento em pessoal capacitado, empurrando o socorro a náufragos para os piquetes da Polícia Marítima, a nível nacional".

"O altruísmo não chega para salvar pessoas", argumentam, notando ainda que nas regiões autónomas da Madeira e Açores as Estações Salva-vidas "são praticamente inexistentes, não obstante a comunidade local viver, maioritariamente, da atividade marítima".

As duas estruturas sindicais defendem a revisão "urgente" do Sistema Nacional de Busca e Salvamento Marítimo, ponderando, "até, a eventual mudança de tutela" e manifestam "total disponibilidade" para colaborarem no inquérito à alegada falta de socorro no naufrágio aberto pelo Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Coimbra "por forma a esclarecer os órgãos judiciários do total empenho e profissionalismo dos seus representados, que, por inoperância do sistema, se mostrou insuficiente para salvar a vida daqueles pescadores".

No comunicado, as estruturas representativas dos tripulantes das embarcações salva-vidas e dos agentes da Polícia Marítima exigem a adoção de medidas "para evitar novas tragédias por ausência ou insuficiente prestação de socorro".

No arrastão Olívia Ribau naufragado na terça-feira à entrada do porto da Figueira da Foz seguiam sete pescadores. Dois foram resgatados com vida por uma moto de água da Polícia Marítima e cinco morreram.

Familiares promovem homenagem a pescadores mortos

Soube-se, entretanto, que os familiares dos tripulantes do arrastão Olívia Ribau vão homenagear na terça-feira os pescadores mortos no naufrágio, através do lançamento de flores ao rio Mondego.

Numa mensagem publicada na rede social Facebook, Eduardo Domingues, que tinha ligações familiares e de amizade com o mestre do arrastão, convida os interessados a reunirem-se no molhe norte do porto comercial, na terça-feira, pelas 19:00 (sensivelmente à mesma hora do naufrágio, uma semana depois do acidente) e lançarem ao rio "uma flor em memória dos que lá ficaram".
 

"Por cada flor lançada devemos mencionar o nome de um pescador", diz Eduardo Domingues, que convida igualmente todos os mestres de embarcações de pesca a juntarem-se à homenagem "com os seus barcos e fazerem tocar as buzinas".