O leque já foi um acessório feminino imprescindível, mas não servia apenas para embelezar, pois servia para expressar uma linguagem própria, uma espécie de código, que permitia às mulheres comunicar com os homens.


 
Numa altura em que as mulheres não tinham qualquer liberdade de expressão, o leque revelou ser um bom instrumento de comunicação. Como as jovens estavam sempre acompanhadas, pelas damas de companhia ou pelas mães, tiveram de arranjar uma forma de comunicar com os pretendentes.

A Casa-Museu Medeiros e Almeida abre portas à nova Sala dos Leques, no dia 28 deste mês, com uma vasta coleção de leques intitulada de «Armas de Sedução». Além de a exposição retratar a história do acessório de moda desde o séc. XVIII até ao séc. XX, dá também a conhecer a enigmática «linguagem do leque».
 

«A linguagem do leque apareceu, supostamente, durante o séc. XVII, mas a primeira referência é do séc. XIX quando o parisiense fabricante de leques, Duvelleroy, publica uma linguagem dos leques num livrete. Essa foi uma forma de conseguir aumentar as vendas», explica Joana Ferreira, responsável da exposição, à TVI24.

 
«A partir daí foram sendo feitas muitas versões do código, mas na prática não existe um código que tenha sido usado assim tanto», acrescenta Joana, que se dedica ao estudo desta coleção desde Fevereiro.


 
Apesar de essa «linguagem do leque» servir para a transmissão de mensagens de cariz amoroso, tratava-se mais de «um jogo de salão do que um meio de comunicação, porque era difícil os homens decorarem-no».
 
«Armas de Sedução - Leques Europeus do Século XVIII ao XX» exibe 72 leques nunca antes expostos ao público, apresentando os elementos constituintes da anatomia do leque e as diferentes tipologias.


 
António Medeiros e Almeida, fundador da Casa-Museu, constituiu a coleção durante as últimas duas décadas e meia da sua vida.
 
«A primeira compra que António Medeiros e Almeida fez foi logo de 139 leques e a coleção tem 210 no total, mas as razões por detrás esta coleção não são conhecidas», conta Joana, explicando que aquele que é considerado um dos maiores mecenas de arte que Portugal já conheceu, colecionou de tudo e criou uma coleção muito variada.
 
«Os leques são objetos de coleção e são muito valiosos. Este ano houve a venda de um leque que tinha um relógio incorporado e tornou-se muito mediático, pois a leiloeira tinha feito uma avaliação de um valor baixo e foi vendido para aí por um milhar de euros», explica Joana.
 

«Os leques têm muitas funções, alguns têm espelhos e garrafinhas de perfume, podendo tornar-se muito valiosos. Temos um leque que tem orifícios para os olhos para as mulheres poderem ver, sem serem vistas», acrescentou a mestranda em Museologia.

 
Os leques mais importantes da coleção pertenceram à Rainha D. Amélia e à Imperatriz D. Eugénia do Montijo, a última esposa de Napoleão III, que governou como Imperador da França de 1852 a 1870.