“O nosso motorista (…) numa situação de calamidade, mostrou todas as qualidades de bravura perante um sistema de proteção civil que nos falhou”. Esta é uma das frases escrita por Ana Fonseca, uma jovem de 22 aos, numa publicação na sua página de Facebook. Ela era uma das passageiras no autocarro conduzido por Eduardo Donas Botto, apanhado pelas chamas no IP3, e assume que nunca terá “palavras suficientes” para lhe agradecer.

Consegui acalmar e consegui salvar esta gente toda. O fogo passou pelo autocarro, de um lado para o outro. Ainda me começou a arder o filtro, mas os bombeiros ainda apagaram. Eu andei no meio do fogo com as pessoas todas. Foi uma coisa impressionante”, afirmou este homem à TVI, quando ainda estava parado no IP3.

Veja AQUI tudo o que disse à TVI.

Nos últimos três dias, morreram pelo menos 36 pessoas, nos incêndios que voltaram a devastar Portugal. Os passageiros do autocarro da Transdev, na maioria estudantes, podiam também fazer parte da cifra negra dos fogos, mas a coragem de um homem e o apoio dos bombeiros terá evitado o pior.

Dezenas de veículos, centenas de pessoas, ficaram encurralados domingo nas bermas do IP3, entre Coimbra e Viseu. Em volta, apenas chamas, um inferno imenso. Havia medo, muito medo. Uns gritavam, outros rezavam em apelos divinos.

Com escolta policial, os veículos acabaram por ser encaminhados para zonas de segurança. Pequenas áreas ainda poupadas ao fogo. Em redor, várias aldeias estavam a arder. A população fugia em pânico para a estrada. O autocarro ficou encostado, junto a uma ponte, várias horas.

O vento levou as chamas, que galgaram o rio, passaram o IP3 e destruíram casas. O incêndio que tinha começado na Lousã e, em pouco tempo, estava em Penacova e Mortágua. 

As palavras “difíceis” de escrever de Ana Fonseca, são um relato lúcido, de uma jovem que sobreviveu ao inferno, mas sabe que podia estar entre as vítimas desta nova tragédia:

Saí de Viseu às 18 horas, no autocarro da Transdev, com destino a Coimbra. Vinha no último banco do autocarro, sempre à janela, olhando para um céu cada vez mais negro, sem uma ponta de sol. Pensa-se que, se um autocarro continua viagem, então não se corre perigo. Era um autocarro quase cheio de estudantes.”

“Por volta das 18:50, o ambiente está demasiado pesado e o céu já não é negro. É de um vermelho incandescente até que se torna amarelo. Tudo à nossa volta são labaredas de fogo. É o pânico geral. Estávamos todos a gritar, uns telefonando às famílias, outros dando as mãos. Eu enterrei a minha cabeça no ombro de uma rapariga ao meu lado, que também soluçava.”

“O vidro ao meu lado estava a ferver, o calor era insuportável e o ar irrespirável. Numa questão de alguns minutos, saímos do autocarro com o auxílio de alguns bombeiros. Há que sublinhar a coragem destes senhores, que na confusão perdi os nomes, mas que para além de lidarem com um incêndio indomável, lidaram connosco. Jovens em pânico, a quem tentavam acalmar da melhor forma possível.”

O relato de Ana da “pior noite da sua vida” levanta dúvidas e coloca questões. As mesmas que muitos portugueses fazem, certamente, após o país ser, de novo atingido, por chamas mortais.

“Depois deste relato e, no meu caso, ter vivenciado tudo isto, não entendo algumas declarações. ‘As comunidades têm de se tornar mais resilientes às catástrofes’. Posso garantir que não vi nada mais que resiliência. Pessoas que saíam dos seus veículos para a estrada, tentando ajudar, fazendo o seu papel de cidadãos activos. (…) Ou o nosso motorista que, numa situação de calamidade, mostrou todas as qualidades de bravura perante um sistema de protecção civil que nos falhou.”

Não consigo entender, de facto, como é que não aprendemos depois da tragédia de Pedrogão Grande.”

Leia aqui o texto Ana Fonseca:

 

O texto divulgado nas redes sociais, de elogio a um motorista, foi erradamente atribuído a Mafalda Lírio, o que não corresponde à verdade. A TVI24 pede, desde já, desculpa pelo equívoco. As palavras de agradecimento são de Ana Fonseca. Ela sim, era uma das passageiras do autocarro e não quis que ato de bravura de Eduardo Donas Botto fosse esquecido.