Luxemburgo. A nossa história começa aqui. Instalações da sociedade panamiana de advogados Mossack Fonseca. 20 de Junho de 2013. É a data do primeiro encontro com um novo cliente português.

Michael Mossack, filho de um dos fundadores da firma, e Kate Jordan, gestora, recebem Jorge Humberto Cunha Ferreira. É este homem: um senior private banker, um gestor de fortunas do BIL, o Banque Internationale à Luxembourg.

O português está também associado a outro cliente da Mossack Fonseca: a agência fiduciária EXPERTA Corporate and Trust Services, filial a 100% do seu próprio banco.

“Normalmente, a Experta poderia arranjar empresas no PMA (Panamá) ou em HK (Hong Kong) e a conta no BIL (Banco Internacional do Luxemburgo), mas a Experta não pode mais atuar como intermediária e o Sr. Cunha está à procura
de alternativas”, escreve Kate Jordan num relatório a dar conta da reunião com Jorge Cunha.

“Arranjar alternativas”, escreve a gestora, ou, por outras palavras, usar a Mossack Fonseca para adquirir companhias offshore, designadamente, no Panamá e em Hong Kong, que possam ser titulares de contas bancárias.

O relatório da reunião da Mossack Fonseca com o cliente 37356 – é o número do “senhor Cunha” - é exaustivo. “Ele está no processo de adquirir uma empresa em Hong Kong e agora quer outra em Hong Kong com uma conta bancária e uma empresa no Panamá”.

 

Cópia do passaporte do gestor de fortunas português que consta nos Papéis do Panamá

Jorge Cunha, que angaria e gere clientes de Portugal, África e América Latina desde 2012, está a tratar da compra de uma companhia em Hong Kong e quer criar lá outra com conta bancária. E pretende ainda adquirir mais uma no Panamá. Mas precisa de arranjar mais. É a primeira revelação...  

“Alguns dos clientes do nosso contacto em Portugal são ex-ministros e/ou políticos, portanto irão aparecer como PEP (Pessoas Politicamente Expostas) no processo de DD (Devida Diligência).

Ex-ministros e/ou políticos. Pessoas politicamente expostas, que suscitam dúvidas e que, por isso mesmo, teriam a obrigação de provar a origem do dinheiro. E não só. Segundo o relatório confidencial, Jorge Cunha disse que conseguia arranjar a papelada  – os DD reforçados – pedidos pela Mossack Fonseca. 
 
A primeira reunião é, necessariamente, considerada um sucesso. 
 
As reuniões do português do BIL com a Mossack Fonseca sucedem-se. 
 
18 de Julho de 2014. Terceiro encontro. E segundo segredo do Luxemburgo. De acordo com Kate Jordan da Mossack Fonseca, Jorge Cunha revela que tem um cliente que é presidente.


“Ele também queria discutir alguns negócios novos. Ele tem um cliente que é presidente de um país, portanto uma importante PEP (Pessoa Politicamente Exposta), que deseja incorporar 10 a 15 empresas panamianas com contas bancárias no Panamá”.


No espaço de um ano, entre 2013 e 2014, a Mossack Fonseca arranjou 12 empresas de fachada ao português.


A TVI e o Expresso deslocaram-se ao Luxemburgo. O primeiro encontro com Jorge Cunha ocorreu no palacete da Belair House, uma subsidiária do BIL. Falou de Angola, do Cazaquistão, do Chile. E deu o dito por não dito. Negou ter políticos portugueses como clientes. É uma versão dos factos.


A segunda reunião com o gestor de fortunas teve lugar dois dias depois no bar de um hotel perto da Belair House. Jorge Cunha deu-nos a lista das empresas offshore criadas para clientes seus com o apoio da Mossack Fonseca. A informação está correta. O problema é o resto: as circunstâncias em que foram criadas. E das duas uma: alguém perdeu a memória ou está a mentir…


A história continua, amanhã, no jornal Expresso e, aqui, na TVI e na TVI 24.