Zé da Guiné, figura marcante da vida noturna e cultural de Lisboa, morreu hoje na cidade onde chegou na década de 1970, disse à agência Lusa fonte da embaixada da Guiné-Bissau em Portugal.

De acordo com o segundo secretário da embaixada, Bacar Sanhá, Zé da Guiné faleceu «hoje no Hospital de São José, onde estava internado há algum tempo».

O corpo de Zé da Guiné, adiantou, deverá ser trasladado para o país onde nasceu, já que «o desejo dele sempre foi ser sepultado na Guiné-Bissau».

Zé da Guiné sofria há mais de dez anos de esclerose lateral amiotrófica, doença neurodegenerativa progressiva e fatal.

Há dois anos foi exibido pela primeira vez, em Lisboa, o documentário «Zé da Guiné - crónica dum africano em Lisboa», sobre a vida de uma «figura emblemática» da capital.

O documentário de José Manuel Lopes, que pretendeu homenagear o homem que «deu a noite à cidade», começou a ser feito em 2001, mas passou dez anos «em stand by», esperando financiamento aqui e ali, contou na altura o realizador.

«Antes do Zé da Guiné as noites eram escuras, frias e metiam medo», recorda a sinopse do filme.

Estávamos em finais dos anos 70. Nascido na Guiné-Bissau, Zé passa pela guerrilha do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e, na altura do 25 de Abril, desembarca em Lisboa «atrás de um sonho».

«Acaba por liderar a mudança de costumes, da noite, de Lisboa», resumiu o realizador. Zé introduz-se no meio estudantil através de uns primos e participa nos primeiros movimentos de «okupas».

Zé da Guiné acabou por se transformar «num perfeito lisboeta» - «é mais lisboeta do que eu, ele conhece tudo, as ruas, as pessoas, os locais», disse José Manuel Lopes.

José Manuel Lopes conheceu Zé da Guiné «nas noites» - «era uma figura emblemática em termos de presença física e extremamente sociável». Começou por ter com ele uma «relação de afastamento», até porque «o Zé da Guiné metia algum respeito». Só posteriormente se tornaram amigos.

A ideia do filme nasceu em 2001, quando Zé da Guiné já estava doente, mas na altura «recusava-se a aceitar isso».

Em 2010, um grupo de amigos criou uma conta-solidariedade para ajudar Zé da Guiné.