O crítico, historiador de arquitetura e professor universitário Paulo Varela Gomes morreu este sábado, quatro anos depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro, confirmou à Lusa o arquiteto Walter Rossa, amigo próximo do também escritor.

A notícia foi avançada num artigo assinado por António Guerreiro na edição digital do jornal Público, recordando o texto escrito para a revista Granta no ano passado, e reproduzido em diversas páginas pela Internet, intitulado “Morrer é mais difícil do que parece”, no qual Paulo Varela Gomes relata o processo de descoberta do cancro e de consequente vivência com a doença.

Entre o diagnóstico e o momento da escrita do texto na Granta, Varela Gomes publicou três romances (um dos quais, “Hotel”, venceu o prémio PEN Narrativa em 2015), uma coletânea de colunas para jornais e terminou mais um romance e um livro de contos.

“Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora”, escreveu o crítico.

“Foi muito importante e mesmo muito relevante a ação dele como crítico de arquitetura, depois como historiador de arquitetura, onde tem uma obra notável”, afirmou Walter Rossa, professor do Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais.

Walter Rossa destacou, acima de tudo, aquilo que era a capacidade “extraordinária” de Paulo Varela Gomes de “mobilização das pessoas que o rodeavam, designadamente os alunos, onde deixou marcas em várias gerações”, pela energia e pelo “brilhante” raciocínio.

O arquiteto sublinhou a última fase da carreira de Varela Gomes, enquanto escritor de ficção, atividade que manteve até ao fim.

Nascido em 1952, Paulo Varela Gomes licenciou-se em História, fez o mestrado em História da Arte e doutorou-se em História da Arquitetura, tendo sido professor da Universidade de Coimbra, onde deu a última aula em dezembro de 2012 sob o título de “Do sublime em arquitetura”.

De acordo com a biografia existente na página do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, onde foi investigador, foi representante da Fundação Oriente em Goa de 1996 a 1998 e, mais tarde, entre 2007 e 2009.

Sobre estas duas passagens pela Índia, Walter Rossa declarou que a "projeção que a Fundação Oriente adquiriu na Índia deve-a ao Paulo Varela Gomes".

Marcelo recorda "cidadão politicamente empenhado"

Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, manifestou pesar pela morte do historiador de arquitetura e escritor, que lembrou como "cidadão politicamente empenhado" e que assumiu "desassombradamente a sua doença terminal".

"O Presidente da República manifesta o seu pesar pela morte de Paulo Varela Gomes. Destacado historiador da arte e da arquitetura, cronista, escreveu nos últimos anos sobre Goa, sobre a vida no campo, e revelou-se também como romancista idiossincrático, autobiográfico e especulativo", lê-se na nota divulgada no sítio da internet da Presidência da República.

Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou que Varela Gomes foi um "cidadão politicamente empenhado, participou em vários movimentos da esquerda portuguesa, com posições veementes e, com frequência, heterodoxas".

"Assumiu desassombradamente a sua doença terminal, em textos e entrevistas, e foi nesses anos de doença que publicou as suas obras literárias mais marcantes", recordou ainda o chefe de Estado.