O abuso de álcool causou a morte de 88 homens e cinco mulheres em 2014, “números elevados” que devem ser combatidos com mais prevenção e uma maior aposta na “rede alcoológica”, defendeu a especialista Teresa Mota.

Os últimos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatísticas referem que, em 2014, foram registadas 89 mortes no país devido a abuso de álcool, incluindo psicose alcoólica, a maioria nas Áreas Metropolitanas de Lisboa (20,2%) e do Porto (9,0%).

A idade média do óbito por esta causa de morte foi de 63,1 para os homens e 65,8 para as mulheres, não se tendo registado mortes em idades inferiores a 25 anos, refere o INE, adiantando que os anos potenciais de vida perdidos foram de 863 para os homens e 50 para as mulheres.

Em declarações à agência Lusa, a propósito do Dia Mundial dos Alcoólicos Anónimos, assinalado hoje, a vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Alcoologia (SPA), Teresa Mota, afirmou que “há um ligeiro decréscimo nos consumos de álcool, mas continuam bastante elevados”.

“Alguma prevenção tem surtido efeito ao longos destes anos”, mas é preciso apostar mais na criação de serviços, em campanhas de sensibilização e na prevenção primária, disse a psiquiatra e coordenadora do Serviço de Alcoologia e Novas Dependências do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa.

Para Teresa Mota, devia “apostar-se muito mais numa rede alcoológica eficaz”, que já existe “mas ainda não está muito bem oleada”.

Os doentes chegam aos cuidados de saúde primários mas depois têm dificuldade” no encaminhamento para os locais de tratamento, “porque são poucos, existem listas de espera e as articulações nem sempre são fáceis”, sublinhou.

Dados do relatório a “A situação do país em matéria de álcool 2014”, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, indicam que estiveram em tratamento no ambulatório da rede pública 11.881 utentes, dos quais 3.353 iniciaram tratamento pela primeira vez e 930 foram readmitidos.

Teresa Mota apontou o aumento das mulheres que estão a procurar ajuda nestes serviços, ultrapassando “a vergonha” que sentem.

O alcoolismo “é muito a doença da vergonha e as mulheres têm especialmente vergonha”, mas, felizmente, “as que bebiam às escondidas e que não se queixavam começam a aparecer cada vez mais nas nossas consultas”.

Sobre o consumo de álcool nos jovens, a psiquiatra disse que estão a consumir mais e com “um padrão diferente do habitual”.

A juventude está muito perdida e sem perspetivas de futuro. Por outro lado, importaram-se padrões de consumo mais típicos do norte da Europa”, adiantou.

Hoje os jovens “vão para a rua consumir doses elevadas de álcool, antes não se fazia assim”, mas é um comportamento que está a ocorrer “um pouco por toda a Europa”.

A psiquiatra defendeu mais campanhas de sensibilização e menos publicidade a bebidas alcoólicas, mesmo em horas tardias.

Há campanhas nas escolas mas deviam ser mais e começar mais cedo, na primária”, disse, defendendo uma estratégia articulada entre os setores da educação e da saúde, a nível dos cuidados primários.

Teresa Mota contou que já começam a chegar alguns jovens aos serviços hospitalares, mas poucos. “Os jovens em geral não nos procuram, podem ir parar a um serviço de urgência embriagados”, mas depois têm alta.

Também podem ser encaminhados para uma consulta, mas muitos não aparecem. “É dícil dizer a um jovem de 20 anos que tem um problema com álcool e é difícil eles aceitarem”.