Uma plataforma cívica defendeu hoje a utilização do Campo de Tiro de Alcochete em alternativa à Base Aérea n.º 6, no Montijo, distrito de Setúbal, para a construção do novo aeroporto, argumentando que a decisão está fundamentada em mitos.

“A alternativa Campo de Tiro de Alcochete é uma opção mais vantajosa”, disse à Lusa o engenheiro e antigo ex-presidente do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) Carlos Matias Ramos.

Na apresentação da Plataforma Cívica Aeroporto BA6 – Montijo Não, realizada hoje perto do Parque Empresarial Fisipe, no Barreiro, com vista para a Base Aérea n.º 6, o responsável apontou que a decisão do Governo “não é uma opção pensada”.

“Não há um documento que sustente a decisão no Montijo”, frisou.

O que o responsável e a plataforma pedem é o acesso a um documento que justifique a decisão, que tenha em conta “o impacto nas pessoas e o comportamento e desempenho desta solução aeroportuária”.

De acordo com Carlos Matias Ramos, “os mitos constantes têm sido a base da fundamentação do processo de decisão”.

Segundo o engenheiro, o Governo diz que esta é uma solução mais barata, rápida e com impactos ambientais semelhantes a outras hipóteses.

Nada mais falso. Temos a solução alternativa Campo de Tiro de Alcochete, onde podemos construir dois edifícios que custam o mesmo. A pista na Base Aérea do Montijo não serve e tem que ser aumentada. E mesmo assim não permite aviões de classe C”, explicou.

O novo aeroporto no Montijo terá também “um risco estrutural”, ao ser “construído sobre lodo”, indicou o ex-presidente do LNEC.

“Temos conhecimento que a espessura de lodo nesta zona anda pelos quinze metros, logo, a capacidade de carga é nula. O edifício que ali se situa foi construído sobre estacaria, foi buscar capacidade de resistência a uma profundidade adequada”, referiu.

O responsável apontou, neste sentido, que “no Campo de Tiro de Alcochete não acontece nada disto”.

“Quando se diz que no Montijo é mais barato porque já há uma pista, é falso”, frisou.

Carlos Matias Ramos disse também que “83 por cento da zona de circulação tem que ser intervencionada” e que a parte final da pista 01 “tem que ser prolongada em trezentos metros, porque neste momento não consegue receber aviões tão simples como o A320-200”.

O engenheiro lembrou que este acrescento será construído “em aterros sobre lodos” e que a pista terá que ser alteada, “porque a inclinação que existe obriga a esse alteamento”.

Segundo o responsável, esta situação pode causar outro problema e questionou: “como é que se faz o cruzamento com a pista 08, que neste momento é de nível? Como é que passam os aviões da 08 para a 01? Vão altear a 08? Vão impedir que os aviões vão a essa zona?”

Carlos Matias Ramos apontou ainda que “em 2035 o Portela mais Montijo vai saturar”, e que “quando se faz um investimento, não se faz para amanhã, mas para a vida”.

Outro dos subscritores do manifesto, consultor na área das telecomunicações, Manuel Fernandes, falou sobre os impactos ambientais da construção do aeroporto no Montijo.

As aves que habitam o Estuário do Tejo, além de estarem em risco, também constituem uma ameaça para a segurança aérea, porque os aviões na aproximação à pista vão sobrevoar estas aves, com grande probabilidade de serem sugadas pelos reatores ou de coliderem nos vidros do ‘cockpit’”, explicou.

O responsável disse ainda que se trata de “um atentado à segurança industrial”, isto porque o Parque Empresarial Fisipe é “um autêntico barril de pólvora”.

“Se cai aqui um avião ou uma aeronave pode haver uma explosão de dimensões catastróficas”, frisou.

Já um antigo membro da Quercus, Acácio Pires, referiu que “o ruído acima do permitido” vai ser prejudicial para a saúde da população, nomeadamente para quem sofre de doenças cardiovasculares e para a concentração das crianças.