A coleção «Darling» de Filipe Faísca, que vai ser apresentada hoje na ModaLisboa, foi feita com a ajuda de nove meninas, oito delas em tratamento no Instituto Português de Oncologia (IPO), autoras do padrão utilizado em algumas peças.

Filipe Faísca juntou as nove meninas, com idades entre os seis e os 16 anos, no seu ateliê, em Lisboa, por duas vezes. Na primeira pediu-lhes que desenhassem sobre um tema – o Amor – e ensinou-lhes o que é um padrão e um tecido estampado. Mas só depois de os desenhos estarem prontos é que revelou que iriam ser usados na coleção.

Quando o designer de moda disse para que iriam servir os desenhos Beatriz achou que «ele estava maluco». Também Rita ficou «surpreendida», mas gostou, achou «uma boa ideia”»

O resultado final só foi desvendado algumas semanas depois, num outro «workshop» a que a Lusa assistiu.

À medida que Filipe Faísca ia mostrando as peças de roupa, as crianças apontavam para os desenhos da sua autoria - flores, rostos, corações e alguns rabiscos abstratos.

Beatriz achou o resultado «engraçado e original» e Rita confessou que «superou» as suas expectativas. «Não imaginava melhor», disse.

Tudo isto começou com um convite da Fundação Rui de Castro Osório (FROC), instituição sem fins lucrativos que concentra a sua atuação na área informativa e científica do cancro pediátrico, ao designer de moda.

Para Filipe Faísca, «não fazia sentido» associar-se a esta causa contribuindo apenas com um donativo monetário, através de um leilão ou revertendo uma percentagem das vendas para a FROC.

«Gostava que houvesse mais interligação entre aquilo que a fundação faz e o que eu faço», referiu à Lusa, decidindo por isso «envolver as crianças» na criação da coleção.


No processo criativo deste designer de moda «há muito de criança», na parte de «experimentação, de corta e cola».

«Sempre senti que havia uma energia de criança que me ajudava. Achei interessante e oportuno fazer um trabalho com os miúdos e envolvi-os», contou.


O entusiasmo com esta «parceria» e a cumplicidade criada era visível tanto nas crianças como em Filipe Faísca.

Também a FROC, através da sua diretora-geral Mariana Oliveira, faz um balanço positivo.

«Elas acharam o máximo. Não tinham noção, nem nós, de como isto ia evoluir. O cancro tem visivelmente muitas questões físicas e o que poderia ser assustador foi uma vivência diferente do dia-a-dia. Dá-lhes uma autoestima e uma experiência diferente como miúdas», disse à Lusa.


Por terem idades muito diferentes, as nove vivem esta experiência de maneiras distintas. «As mais pequenas acham graça porque é o desenho, mas as maiores por verem o que desenharam ser desfilado por manequins profissionais», contou Mariana Oliveira.

A FROC, que trabalha com os IPO do Porto e de Lisboa, com o Hospital Pediátrico de Coimbra e com o Hospital de São João do Porto, não esperava tanto do convite feito a Filipe Faísca.

«Ficámos surpreendidos, positivamente, porque era suposto ser uma coisa mais comedida», confessou Mariana Oliveira.

Às meninas, considerou, «deu uma hipótese de, dentro de um tema pesado, estarem noutra atmosfera».

Além da alegria dada às crianças, corroborada pelos pais, que «dizem que elas estão felizes e à espera do dia do desfile», esta parceria servirá também para angariar fundos para a FROC.

Depois do desfile, marcado para as 16:00, realiza-se a iniciativa «Give and Take», onde a coleção será mostrada e vendida às clientes habituais de Filipe Faísca. Do produto dessas vendas, 30% reverte a favor da fundação.

Além disso, a FROC instalou uma banca nos Paços do Concelho durante os três dias da ModaLisboa (entre sexta-feira e hoje), onde estão à venda t-shirts e sacos estampados com desenhos feitos nos «workshops».