Os enfermeiros do Hospital de Santarém decidiram esta sexta-feira «dar um ultimato» ao Ministério da Saúde, admitindo avançar com uma posição «muito drástica» se até dia 14 de agosto não for desbloqueada a contratação de profissionais.

«Vamos dar um ultimato ao Ministério. Tem até 14 agosto para resolver a situação, senão vamos tomar, com muita dificuldade na nossa profissão, que tem sempre as pessoas na mira, pela primeira vez, uma posição muito drástica em relação à prestação de cuidados nesta unidade», disse Helena Jorge, da direção regional do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), no final de um plenário que se prolongou por mais de duas horas e que foi «muito participado».

Sublinhando o nível de exaustão a que chegaram os enfermeiros do Hospital de Santarém, devido à «carência enorme de profissionais», Helena Jorge afirmou que as formas de luta a adotar obrigarão o Ministério da Saúde «a vir dizer quais os serviços que vai fechar e quais os doentes que são prioritários».

«É uma situação que já não tem controlo. Há um nível de exaustão muito grande, com horários completamente ilegais, pois não se cumpre nem o descanso nem as folgas, e os enfermeiros hoje decidiram que não vão continuar neste nível de prestação de cuidados porque já não conseguimos nem cuidar de nós nem dos outros e quando assim é o país deve estar em alerta máximo», afirmou.

Helena Jorge adiantou que na segunda-feira vai ser feita uma participação à Autoridade para as Condições do Trabalho (em relação às condições de trabalho dos enfermeiros contratados) e à Inspeção Geral da Saúde (em relação aos restantes), tendo sido igualmente decidido solicitar uma reunião à Câmara Municipal de Santarém.

A responsável do SEP afirmou que, tendo em conta a sobrecarga horária a que já estão sujeitos - chegando a fazer 180 a 200 horas de trabalho às quatro semanas quando deviam fazer 160 -, os enfermeiros deixaram de estar disponíveis para fazer horas extraordinárias, incluindo para fazer transporte de doentes.

«Trabalhamos um por dois para que tudo esteja feito e isso não pode acontecer porque não temos segurança nem em nós nem nos outros, não vamos continuar¿, declarou, lamentando que o Ministério da Saúde queira ¿poupar dinheiro à custa da saúde das pessoas colocando a responsabilidade nos seus profissionais, o que é uma coisa muito hipócrita».

Helena Jorge afirmou que os enfermeiros estão determinados a assumir responsabilidades apenas pelo número de doentes que têm capacidade de cuidar, devendo ser o Ministério a decidir o que acontece aos outros.

«Temos assumido todos os dias continuar a fazer à nossa custa, à custa dos cuidados dos utentes. Acabou. Cuidamos daqueles, os outros não sabemos, não podemos fazer mais. Ou o senhor ministro resolve urgentemente ou vai ter aqui uma situação como nunca teve em agosto neste hospital», afirmou.

Helena Jorge afirmou que além dos enfermeiros que se têm aposentado, o hospital de Santarém tem vindo a perder enfermeiros para a emigração, dando o exemplo de mais quatro profissionais «com mais de 20 anos de serviço e altamente especializados» que estão de partida para Inglaterra.

A dirigente nacional do SEP Guadalupe Simões, que participou igualmente no plenário, frisou que a situação vivida no hospital de Santarém «infelizmente passa-se na maioria instituições saúde» do país, responsabilizando o sindicato os Ministérios da Saúde e das Finanças pela não autorização de contratação de enfermeiros que as instituições têm vindo a pedir.

Guadalupe Simões lembrou que estão já a decorrer ou estão agendadas greves em centros saúde e hospitais, «situação que pode vir a ocorrer» igualmente no hospital de Santarém, como conta a Lusa.