São ricos – uns mais, outros menos – e procuram, cada vez mais, novas formas de gastar dinheiro. Parece estranho, mas é mesmo assim. É que o dinheiro não é para estar parado no banco e, desde a crise de 2008, com as tradicionais aplicações financeiras desacreditadas, são precisos novos negócios. Por isso, a TVI foi saber onde é que os portugueses mais abastados andam a gastar dinheiro.

Joias, quadros, relógios, até pratos e livros raros são cada vez mais olhados como bons investimentos. E o mesmo acontece com os carros de luxo. Quanto mais exclusivos e mais caros, melhor o investimento.

Um carro desvaloriza depressa?

“No segmento premium, há carros realmente exclusivos que chegam a ultrapassar o meio milhão de euros. É um investimento num artigo relativamente seguro, que se valoriza com o tempo, ao contrário do que ouvimos frequentemente em relação aos automóveis, que se desvalorizam rapidamente”.

A explicação é de Miguel Costa, diretor-geral da Maserati em Portugal, mas que também lida com outras marcas de luxo, como a Jaguar ou a Aston Martin. Comprar “um maquinão” destes, como se costuma dizer, é uma forma alternativa de empregar o dinheiro, mas é também uma paixão que permite aos apaixonados usufruir de algo lhes proporciona exclusividade, luxo, e uma performance muito acima da média.

E se for uma edição limitada, personalizada, tanto melhor, porque esses detalhes vão tornar o automóvel ainda mais raro e valorizá-lo ainda mais no futuro. “É quase como investir numa obra de arte”, explica.

Mas é no segmento dos 50 a 100 mil euros que mais se vende, valores que uma fatia generosa dos ricos em Portugal conseguem suportar. Quer um exemplo? Nos primeiros dois meses do ano, a Jaguar vendeu 75 automóveis em Portugal. É mais do que um por dia. O XE, que é um dos modelos mais acessíveis da marca, a rondar os 60 mil euros, tem sido um caso sério de sucesso.

Tempo é dinheiro.

Na Boutique dos Relógios, o tempo é mesmo dinheiro. E nesta loja há peças que valem muito, muito tempo.

“O suprassumo será um Breguet. Tem peças únicas, em que se fabrica literalmente um exemplar no mundo, ou edições limitadas de 10 ou 20 unidades, que chegam a atingir os 200, 300 até 500 mil euros. E há portugueses nesse segmento, ainda que não sejam muitos”.

 

David Kolinski,  responsável de desenvolvimento de negócios da Boutique dos Relógios, diz que é entre os 5 e os 20 mil euros que os relógios têm mais procura em Portugal. Esta é a fasquia que “permite a entrada no mundo do luxo”.

“Notamos um regresso às marcas clássicas, como a Omega, que é uma das marcas mais procuradas. E depois há uma aposta nas peças exclusivas, diferenciadoras, que podem ser encaradas como uma peça de arte”.

 

Os diamantes são eternos

Peças de arte são também as que saem da loja de Maria João Bahia. São joias desenhadas e criadas de raiz à medida de cada cliente. Quem entra nesta joalharia exclusiva na Avenida da Liberdade em Lisboa sai com a certeza de que não corre o risco de encontrar lá fora uma peça igual.

“Cada peça é única, não há outra igual no mundo, é irrepetível. E essa exclusividade, esse ato criativo é muito apreciado nesse segmento mais alto”.

 

Os diamantes são eternos – e consta que também são os melhores amigos das mulheres – e por isso nunca saem de moda. São os mais procurados pelos ricos em Portugal, mas das mãos de Maria João Bahia saem peças (sobretudo de ouro) com todo o tipo de pedras preciosas. A TVI bem tentou arrancar de João Almeida os preços destas obras de arte, mas a resposta calou-nos:

“Quando uma peça é única e especial, não tem preço. O valor não tem limite. Tudo depende do que o cliente quer que nós façamos”.

 

(Como) uma peça de arte?

Não são como, são mesmo peças de arte, as que se vendem na leiloeira Correio do Palácio Velho, no Chiado em Lisboa. E a pintura é a arte preferida dos abastados portugueses.

“As pessoas compram uma casa boa na Quinta da Marinha ou na Quinta Patino e querem peças à altura desse investimento. Os pintores portugueses são muito apreciados, e a Paula Rego e o Júlio Pomar são os artistas vivos mais caros”.

 

João pinto Ribeiro, presidente da leiloeira, já vendeu algumas peças por verdadeiras fortunas. No ano passado foi a vez do “Almoço do Trolha”, de Júlio Pomar, que foi arrematado por 410 mil euros.

“É um valor que só uma mão cheia de pessoas em Portugal está disposta e pode pagar”.

 

Mas para os mais comedidos, também há oferta.

“Temos outra obra de Pomar – O Rapto da Europa – que vai a leilão agora em abril. Vamos começar com uma base de licitação nos 50 a 60 mil euros mas pela experiência que temos, achamos que deve sair em torno dos 100 mil”.

Vêm da China mas não falam chinês. Só português

Mas nem toda a arte é pintura. E nos últimos três anos, a procura por peças de arte, está em alta.

“Temos também muitos clientes que procuram pratas e ourivesaria e porcelanas chinesas. As mais apreciadas são as da Companhia das Índias. Apesar de serem chinesas, são peças feitas para portugueses, e as pessoas sentem essa afinidade, sobretudo nas peças com brasões das famílias portuguesas”, explica João Pinto Ribeiro.

“Por exemplo, temos agora um prato muito raro, com o brasão da família Sampaio e Melo, que num leilão vale à roda de 20 mil euros”.

 

Dos leilões do Palácio do Correio Velho também saem livros raros, moedas, e até vinhos, que chegam a valer 1.500 euros por garrafa. “Estas já não são compras a pensar numa valorização futura. Quem compra estes vinhos, é mesmo para beber, até porque têm uma validade para serem consumidos que não é muito longa”.

A nós parece-nos bem. Afinal de que serve ter dinheiro, se não for para gozar os prazeres da vida?