Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar, admite que a instituição que dirige está “muito longe de assegurar as necessidades totais das instituições e das famílias. Muito, muito longe”. Ainda assim, a responsável sublinha que “há um certo alívio da situação que se viveu pior em 2011 e 2012”.
 
Para Isabel Jonet esse alívio “sente-se um pouco por toda a Europa, com exceção da Grécia”. Verifica-se na descida do desemprego e também no aumento de excedentes que as empresas produzem, que indicam uma maior confiança no poder de consumo dos portugueses.
 

“Mesmo as famílias mais pobres estavam endividadas”

 
No programa “Olhos nos Olhos”, com Medina Carreira e Judite de Sousa, Isabel Jonet recordou um estudo dos bancos alimentares, em parceria com a Universidade Católica e a Entreajuda, que foi divulgado antes da última campanha de maio.
 

“É um estudo recorrente, realizado em 2010, 2011, 2012. (…) Foram inquiridas três mil pessoas e essas pessoas que são as mesmas não têm mais dinheiro, mas sentem-se menos pobres. Ou seja, houve um reajustar de consumos.”

 

“É o reajustar daquilo que acham que poderiam comprar. Há um reajustar da expetativa de consumo para uma perspetiva mais realista. (…) Mesmo as famílias mais pobres estavam endividadas. Era muito fácil encontrar famílias que não tinham rendimentos para sobreviver decentemente, mas que tinham créditos ao consumo. Que tinha acreditado que poderiam ter um crédito ao consumo que alguém haveria de pagar. São pessoas que hoje têm o ordenado mínimo, mas que têm parte do seu salário penhorado”, explicou.

 
O estudo, recordou, revelou um outro dado preocupante: “Infelizmente, um terço dessas pessoas disse que passava fome pelo menos uma vez por semana. (…) E não disse que tinha carências alimentares. Disse que passava fome. Significa que pelo menos um dia por semana não tinha nada para comer. (…) São pessoas que quando não têm o apoio alimentar de uma instituição não comem.”
 

“A governação de hoje é uma governação muitíssimo frágil”

 
A entrevista a Isabel Jonet serviu de mote para Medina Carreira lançar um alerta: a crise de que estamos a sair pode voltar.
 

“A governação de hoje é uma governação muitíssimo frágil porque não tem instrumentos (…) Quando não há instrumentos, cai-se nas crises e sai-se delas com muita dificuldade. Esta nossa crise de agora, se tivesse sido há 25 anos, nós já estaríamos num patamar de recuperação muito mais avançado”, disse o comentador da TVI24.

 
Medina Carreira alerta que basta “uma alteração nos juros” para voltarmos a entrar em crise em poucos anos. “A sociedade não percebe que o Governo agora, não é Governo. É uma coisinha que está por ali a tentar arrumar a casa. Não é como o Governo de há 20 anos ou de há 30 anos, porque não tem meios”, sublinhou
 
Para o jurista e antigo ministro das Finanças, “é necessário que as governações evitem cair nas crises, porque depois sair das crises é o diabo.”