O investigador Domingos Xavier Viegas disse hoje que os acidentes em incêndios florestais registados este ano demonstram que há ainda um «longo caminho a percorrer» ao nível dos cuidados de segurança durante o combate às chamas.

«Nós insistimos nesse ponto. Colocamos a segurança em primeiro lugar e falamos aos bombeiros de que devem ter de facto medo do fogo. Não se devem meter à frente dele, como se não fosse nada. Mas talvez essa mensagem ainda não esteja a ser universal», referiu o responsável do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais, situado no aeródromo da Lousã.

Xavier Viegas falava aos jornalistas durante a apresentação, em laboratório, de uma propagação de um fogo num desfiladeiro, para ilustrar o «efeito de chaminé», ou comportamento eruptivo, que é «muito previsível» nos incêndios, mas responsável pela maioria dos acidentes que vitima bombeiros durante o combate às chamas.

«É um fenómeno previsível, mas há situações em que ele demora um pouco de tempo a acontecer e os bombeiros têm sempre a esperança de intervir e apagar o fogo antes que a situação de erupção aconteça», explicou.

O especialista em fogos florestais considera que deve ter-se «mais cuidado com as pessoas e evitar situações de risco».

«Porque infelizmente o que vos mostrámos no laboratório é o que vemos no dia-a-dia nos incêndios e, portanto, haverá condições em que se justifica como única solução para apagar um fogo, mas na maior parte dos casos não se justifica meter as pessoas em perigo em situações destas».

O investigador e professor da Universidade de Coimbra considera que, apesar da formação dada aos bombeiros, que considera terem uma preparação melhor do que em alguns países europeus, nem todos «aprendem da mesma forma e, portanto, numa formação, a mesma coisa não chega da mesma forma a cada um dos bombeiros».

Segundo Xavier Viegas, existem depois as «situações concretas» em que os bombeiros estão cansados «e pode haver uma distração e não prestam atenção aos cuidados de segurança que lhe foram transmitidos».

«É uma questão (segurança) com que se deve massacrar os bombeiros para que fique bem mantida neles e tem de haver uma mudança de mentalidade, que penso que já vai havendo. Os nossos bombeiros viram ao que estão expostos e reparei que, pouco a pouco, tem existido uma mudança de atitude perante estas situações», salientou.

Aos jornalistas, o especialista em fogos florestais disse ainda que se tem notado e sentido nestes anos «uma grande falta na componente de prevenção», nomeadamente na tarefa de limpeza de florestas.

«Não digo por todo o lado, mas em sítios estratégicos, criando zonas que permitem ter alguma segurança, faixas de limpeza e descontinuidade onde se possa conter o fogo» entre parcelas para evitar grandes incêndios.

Este ano está a «ser muito parecido com 2003, mas felizmente ainda não se atingiu as áreas desse ano, que foram absolutamente desastrosas», comparou ainda Xavier Viegas.