O novo Juramento de Hipócrates foi este domingo lido pela primeira vez em Portugal, apresentando uma versão sem " paternalismo beneficente" e em que o doente passa a estar no centro de todas as preocupações, segundo o presidente da Ordem dos Médicos do Centro.

Em Coimbra, mais de 300 jovens médicos prestaram pela primeira vez em Portugal o Juramento de Hipócrates, de acordo com a versão atualizada em outubro pela Associação Médica Mundial

Para o presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM), Carlos Cortes, com o novo texto, o juramento "perde definitivamente o seu paternalismo beneficente", com a abordagem dos procedimentos médicos a deixar de ser "um atributo exclusivo do médico, passando a decisão informada a ser tomada pela equipa médico-doente".

O novo texto, sublinhou, "coloca o doente no centro de todas as preocupações e coloca-o num patamar de intervenção e decisão na estratégia terapêutica da sua própria doença".

Esta nova versão é uma resposta à desumanização galopante imposta por dirigentes da saúde acéfalos e desprovidos de qualquer sentido de compaixão", vincou Carlos Cortes, que falava durante a cerimónia do juramento, que decorreu hoje à tarde no Convento São Francisco, em Coimbra.

De acordo com Carlos Cortes, o texto mostra que "mais importante do que a doença e a sua erradicação é o ser humano e a sua dignidade".

Este juramento - e esta é uma novidade importante - não centra a sua preocupação exclusivamente no doente. O médico, e sobretudo o seu bem-estar, a sua própria saúde passam a ser uma determinante incontornável para a prática de cuidados de saúde adequados", acrescentou.

Para o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, a essência do Juramento de Hipócrates "é a mesma", mudando "pequenas coisas que são importantes para acompanhar aquilo que é a evolução" da medicina e das relações éticas e deontológicas.

Em declarações aos jornalistas, Miguel Guimarães também chamou a atenção para a centralidade que o doente ganha nesta nova versão.

"Este novo juramento vem corresponder àquilo que são as práticas atuais", constatou.

"Respeitarei a autonomia e a dignidade do meu doente" e "Guardarei o máximo de respeito pela vida humana" são algumas das novidades introduzidas pela Associação Médica Mundial no Juramento de Hipócrates.

Na anterior versão, o Juramento contemplava a seguinte frase: "Guardarei respeito absoluto pela vida humana desde o início", tendo sido substituído o "respeito absoluto" por "máximo respeito".

O respeito pela "autonomia e dignidade" do doente são novidades em relação ao texto anterior.

A orientação sexual passa a figurar entre as considerações que não se podem interpor entre o dever do médico e o seu doente, a par da idade, deficiência, crença religiosa, origem étnica, nacionalidade, filiação política ou estatuto social.

Na anterior versão do Juramento constava apenas a religião, raça, nacionalidade, política e condição social.

Outra questão introduzida no novo texto diz respeito ao cuidado que os médicos têm de ter com a sua própria saúde: "Cuidarei da minha saúde, bem-estar e capacidade para prestar cuidados de maior qualidade".

O Juramento de Hipócrates não é obrigatório, mas possui forte carga simbólica por marcar o início da atividade dos médicos, sendo no fundo um passo em que os novos clínicos juram praticar a medicina honestamente.