O tribunal considerou que o desaparecimento de Madeleine McCann, em 2007, no Algarve, provocou um «estado emocional negativo» aos pais, mas que o livro «Maddie - A Verdade da Mentira», da autoria de Gonçalo Amaral, também os afetou psicologicamente.

No despacho da matéria provada em julgamento, a que a agência Lusa teve acesso, a juíza referiu que o estado emocional de Kate e Gerry McCann «é pré-existente ao livro, ao documentário e à entrevista» do ex-inspetor da Polícia Judiciária e «não deve confundir-se com as consequências psicológicas específicas desses concretos eventos».

Todavia, Emília Melo e Castro considerou também que, «não pode também, à luz de uma leitura razoável dos depoimentos prestados e das regras de experiência da vida, dar esses eventos como absolutamente neutros ou inócuos».

«Julga-se seguro afirmar que os autores sentiram, em consequência daqueles eventos, raiva, desespero e angústia. É ainda suportado pela prova que os mesmos vivenciaram preocupação (por temerem, segundo relatado por várias testemunhas, que a tese do livro pusesse em causa os esforços para encontrar a filha) e que sofreram insónias e falta de apetite», refere o despacho judicial.

Embora reforçando que não foi feita prova que «qualquer estado de destruição (emocional) do casal tenha sido causado pelo livro, pelo documentário ou pela entrevista», a magistrada assinalou que «os mesmos autores sentem mal-estar por serem considerados, pelas pessoas que acreditam na tese do réu Gonçalo Amaral sobre o desaparecimento de Madeleine McCann, como responsáveis pela ocultação do cadáver desta e como autores da simulação do seu rapto».

Na opinião da advogada dos McCann, Isabel Duarte, «foram provados danos diretamente originados pelo livro e foi provado que o livro contém informações provenientes da investigação levada a cabo no processo-crime, mas algumas truncadas, incompletas».

A agência Lusa tentou o contacto telefónico com Gonçalo Amaral e com o seu advogado, Miguel Cruz Rodrigues, mas não obteve resposta até ao momento.

A sentença deste processo, em que a família McCann acusa o ex-coordenador do Departamento de Investigação Criminal de Portimão de difamação e pede 1,2 milhões de euros de indemnização, será comunicada às partes.

Madeleine McCann desapareceu quando tinha quatro anos, no aldeamento turístico da Aldeia da Luz, perto de Portimão, onde a família se encontrava em férias.

Kate e Gerry McCann sempre mantiveram a posição de que Maddie foi raptada. O caso foi reaberto recentemente pelo Ministério Público.