MC Snake: «A verdade morreu com ele»

Funeral juntou milhares num tom pacífico e sereno, mas de apelo à justiça

Por: Redação / Aline Raimundo    |   18 de Março de 2010 às 17:10
Começaram «a andar juntos de bicicleta» na Zona J, em Chelas. Ricardo Neves é amigo de longa data de MC Snake, atingido a tiro pela PSP na segunda-feira, em Lisboa, e não acredita na versão da polícia, nem no que dizem os jornais: «Uma pessoa que não bebe, que tinha os documentos, não ia fugir à polícia por nada».

Para Ricardo, que esteve entre as duas mil pessoas que assistiram ao funeral de Nuno Rodrigues esta quinta-feira, a verdade do que realmente aconteceu «morreu com ele», disse ao tvi24.pt.

O silêncio, muito silêncio, dos que aguardavam consternados a chegada do corpo ao cemitério do Alto de São João só foi quebrado pelo som das máquinas dos motards que em homenagem acompanharam o cortejo fúnebre. E também pelos primeiros aplausos, vibrantes, depois várias vezes repetidos e acompanhados por gritos de «Snake! Snake!».

Apelos à serenidade por parte da família do rapper marcaram a última homenagem em que os participantes foram na grande maioria jovens. Jovens com «look» hip hop ou R&B, outros vestindo uma t-shirt branca com uma fotografia de «Snake» e datas de nascimento e morte do músico. Jovens que, antes, tinham aguardado pacientemente em silêncio, quase imóveis, a chegada do carro fúnebre e que, depois, o seguiram consternados e sem ânimo para falar aos jornalistas. Entre a multidão silenciosa, ordeira, pacífica, algumas caras conhecidas. Sam the Kid, que no final se revelou demasiado emocionado para prestar declarações: «Não me leve a mal...». Virgul e Boss AC, a renovarem os apelos à calma e a destacarem o carácter pacífico da cerimónia.

«É um momento triste. Acima de tudo, as pessoas vieram em paz. Não houve desacatos. Isso é que é importante. Pela minha parte, espero que se faça justiça, se mantenha a calma e se respeite o Nuno. Ao contrário do que se tentou demonstrar, o que impera aqui é a paz», realçou Boss AC.

Sem querer alongar-se nos comentários por saber «tanto como a imprensa», o autor da música «Baza Baza» admitiu que a morte de MC Snake é uma «história mal contada». «Não quero alimentar polémicas, mas há muitas coisas por explicar», continuou Boss AC.

A condizer com as palavras de Boss AC, e antes, no momento em que o corpo estava a ser sepultado, tínhamos ouvido alguém ao nosso lado dizer baixinho: «Todos gostavam dele...».

«O meu irmão é da paz»

Ainda não se sabe o resultado da autópsia, mas a família continua a defender a integridade de MC Snake. Jorge Rodrigues, irmão de Nuno Rodrigues, disse ao tvi24.pt que «só queria conhecer o polícia que deu o tiro para dizer que o meu irmão é da paz».

«Soube que o meu irmão não tinha álcool não tinha nada. Isso para nós é o mais importante. Vestindo-se como se vestia, andam a tentar rotulá-lo de tudo e mais alguma coisa. Não estamos descansados com a injustiça que fizeram com o meu irmão», afirmou ainda antes do funeral, à porta da igreja de Santa Clara, em Chelas.

Jorge Rodrigues apelou à serenidade e chegou mesmo a dizer que a PSP era bem-vinda para garantir a segurança.

«Não vamos rotular todos os polícias pela atitude de um polícia, ou dos seis ou sete polícias que estavam dentro daquela carrinha. Já recebemos as condolências de alguns polícias a nível pessoal e não posso rotular todos da mesma forma, do mesmo modo que não quero que rotulem o meu irmão. Não posso ser injusto e ver as coisas só de um lado».

Nuno Barros, amigo de MC Snake, definiu-o como uma pessoa «alegre e pachorrenta». «Quem conhece o Nuno, sabe que não houve perseguição nenhuma [da polícia]. Ele quando ouvia uma sirene parava logo. Não tinha arma, nem droga, não bebia», garantiu.

Para os amigos, a detenção de MC Snake, no final dos anos 90, por suspeitas de tráfico de droga pertence ao passado. O rapper pagou a dívida à sociedade cumprindo uma pena de prisão de onde, dizem, saiu «regenerado».

«Excessos o Nuno só tinha de...CD e música alta. No máximo, a infracção que ele cometeu foi poluição sonora», concluiu Nuno Barros.
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