A ama que foi filmada a maltratar crianças numa creche ilegal, em Lisboa, confessou hoje em tribunal que bateu num dos meninos, tendo pedido perdão aos pais e à vítima de dois anos e meio.

«Confesso o facto de ter batido na criança que se vê na televisão. Peço mil perdões ao Bernardo e aos pais. Só depois de ver as imagens é que caí em mim e perguntei: como é que fui capaz de fazer aquilo? É quase impensável e ainda hoje é um pesadelo incrível que tenho», explicou a arguida perante a juíza do 6.º Juízo Criminal de Lisboa.

Visivelmente emocionada, a mulher, atualmente com 63 anos e reformada, mostrou-se «muito arrependida» por ter dado sete estaladas no rosto da criança, durante a hora da refeição, e negou que tenha feito o mesmo com a outra vítima, com menos de três anos.

«Só bati no Bernardo, não bati no Francisco», assegurou a arguida, acrescentando que «sempre gostou e gosta muito de crianças».

A mulher foi filmada pelos vizinhos a agredir as vítimas, em 2011, ano em que tinha a seu cargo 17 crianças no próprio apartamento, na avenida Miguel Bombarda, em Lisboa. Está acusada de dois crimes de maus tratos, tendo hoje pedido a palavra pela primeira vez em julgamento para confessar parcialmente os factos constantes do despacho de pronúncia.

A arguida justificou o episódio de maus tratos com o facto de ter atingido o seu limite.

«O meu marido tinha falecido em novembro de 2010. Além de ter muita carga emocional, sentia um conflito interno. Sabia que tinha muitas crianças, mas os pais pediam-me para ficar com elas e eu não sabia dizer que não. Cheguei ao meu ponto de rutura. Só depois de ver as imagens é que rebobinei e me questionei como é que foi possível ter chegado àquele ponto», explicou a mulher.

A arguida assumiu ainda que dava de comer às crianças «do mesmo prato e com a mesma colher».

Perante a confissão parcial da acusação pela arguida, e tendo em conta que os pais do menor Francisco não o reconhecem nas imagens como sendo a outra criança a ser alvo de maus tratos por parte da ama, o procurador do Ministério Público prescindiu de ouvir uma última testemunha.

O tribunal está ainda a aguardar a chegada dos relatórios sociais.

As alegações finais ficaram agendadas para as 10:30 de 12 de março no 6.º Juízo Criminal de Lisboa, no Campus da Justiça.