As questões da Saúde são as que mais dificultam a vida aos imigrantes, especialmente se aliadas ao desconhecimento da língua, mas um médico em Lisboa quer mudar a situação, a começar pelos que chegam do Bangladesh.

No “The Migrant Integration Policy Index”, que mede as políticas de integração dos imigrantes em 38 países, incluindo toda a União Europeia, afirma-se que Portugal é o segundo país mais favorável do ocidente em termos de políticas de integração, à frente dos países nórdicos e outros tradicionalmente mais acolhedores.

Mas não na Saúde. Se em áreas como o mercado de trabalho ou a reunião familiar Portugal tem respetivamente uma pontuação de 91 (em 100) e 88, na Saúde fica-se pelos 43 pontos, o mais baixo, o que leva os responsáveis do Index a recomendar a sensibilização dos prestadores de Saúde para melhorar a capacidade de resposta a imigrantes.

Não foi, no entanto, o Index que motivou Cristiano Figueiredo, médico de família, especializado em medicina geral e familiar, a meter mãos a um projeto único no país, de apoio a imigrantes na área da Saúde.

O médico esteve em Londres há três anos a trabalhar com o britânico Vikesh Sharma, junto da comunidade portuguesa, traduzindo folhetos e informando os portugueses sobre os diferentes serviços de saúde e o seu funcionamento, e ajudar a resolver problemas.

De regresso a Portugal é um projeto idêntico que está a criar. “Enquanto cidadão notei um fluxo crescente de pessoas do sul da Ásia, do Nepal, do Bangladesh… um dia num restaurante falei com os empregados, do Bangladesh, sobre a perceção que têm do sistema de Saúde e pensei que havia aqui uma necessidade”.

É Cristiano quem o conta à Lusa. Foi Cristiano que nessa mesma noite enviou um email à Junta de Freguesia de Arroios, cuja presidente, Margarida Martins (que foi presidente da associação Abraço durante duas décadas), aceitou discutir o assunto. E do encontro saiu a ideia de se começar o trabalho com a comunidade do Bangladesh, das mais necessitadas devido a barreiras culturais, religiosas e linguísticas.

Conta o médico que para fazer a ligação à comunidade contactou o presidente do Centro Islâmico do Bangladesh, Rana Uddin, que vive em Portugal há 27 anos e que concordou que havia da parte dos seus concidadãos dificuldade no acesso aos serviços de saúde, “muito por falta de informação”.

Cristiano, médico na Unidade de Saúde Familiar da Baixa, no Martim Moniz, afirma: “Um imigrante não recorre ao Serviço Nacional de Saúde e se precisa mesmo vai às urgências hospitalares que é o que se lembra”.

O projeto, também com o apoio da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, foi criado em 2016 e tem estado a avançar. Em agosto passado organizaram-se grupos de discussão informais com a comunidade do Bangladesh, fizeram-se grupos de discussão com profissionais da Unidade de Saúde, fez-se uma “walk with a doc” (caminhada com um médico).

Percebemos quais as dificuldades, sobretudo a barreira linguística e depois a barreira cultural. As mulheres do Bangladesh preferem ser observadas por médicas mulheres e isso nem sempre é fácil”, diz Cristiano Figueiredo, acrescentando: “Estamos a explorar um caminho novo. Como isto não existe nada. Ao nível da Saúde estamos a ser pioneiros, a tentar dar respostas”.

E a comunidade do Bangladesh agradece. Sentado numa explanada no Martim Moniz em Lisboa, quase em frente da Unidade de Saúde onde deverá estar Cristiano Figueiredo, Rana Uddin garante que o projeto é “muito importante para uma comunidade que não fala muito bem português”.

Há muita gente que está a sofrer com muitas doenças e não as consegue explicar aos médicos. E os centros de saúde também não têm tradutor”, conta Rana Uddin, também presidente da Mesquita Baitul Mukarram.

E acrescenta: “Temos muitas mulheres que quando estão grávidas precisam de uma médica. E depois no parto elas não querem que sejam homens. Muitas pessoas vêm ter comigo para que eu fale com os médicos, que explique, porque as mulheres não querem mesmo”.

Uddin conta que mesmo a sua mulher não queria a presença de homens nos partos e que foi ele quem a convenceu de que era irrelevante. “Há 30 ou 40 anos se calhar aqui em Portugal também seria assim”, diz à Lusa, com um sorriso, o responsável, um lisboeta convicto que chegou há tanto tempo que costuma dizer que foi ele quem “descobriu Portugal”. Há 27 anos “éramos cinco do Bangladesh” em Portugal, hoje somos 15 mil, diz.

Mas diz mais. Que quando um bengali fica doente ou vai à farmácia ou a um médico privado, “mas só uma vez, porque fica sem dinheiro”, muitos nem sabem que existem centros de saúde, que era muito útil que equipas de médicos fizessem mensalmente uma reunião com a comunidade, por exemplo nas juntas de freguesia, que “os novos fossem informados” do sistema de Saúde, do que devem fazer se estiverem doentes.

Há muitos diabéticos e com doenças de coração. Um conselho de um médico pode ajudar”, diz, salientando que a imigração do Bangladesh não é qualificada, que a maior parte dos imigrantes em Lisboa trabalha nas “500 a 600 lojas” que exploram.

 

Notamos que muitos trabalham em lojas, muitas horas seguidas, que têm uma vida sedentária, notamos uma prevalência de diabetes e hipertensão”, diz Cristiano Figueiredo, que quer organizar um inquérito junto da comunidade, para conhecer os problemas de saúde de forma abrangente, que quer construir um guia de acesso ao Serviço Nacional de Saúde, que quer combater a desinformação, explicar aos imigrantes ilegais os direitos que têm.

Na unidade de saúde onde trabalha 30% dos utentes são imigrantes, a maior parte do Bangladesh (dados de 2016). Na freguesia de Santa Maria Maior (baixa da capital) vivem 92 comunidades. Cristiano Figueiredo acredita que o projeto que está a desenvolver é um projeto piloto que pode ser replicado para outros grupos além dos bengalis.

Uddin lá estará para ajudar. Ou não. Talvez um dia volte com a mulher ao sítio onde nasceram e cresceram apesar de gostarem tanto de Portugal. E os filhos? Sorri mais uma vez. “A terra deles é aqui”.