O trabalho sobre a crise em Portugal, do repórter fotográfico Mário Cruz, da agência Lusa, está em destaque no blogue de The New York Times e vai ser publicado, na segunda-feira, na versão impressa deste jornal.

«An elusive roof of one’s own in Lisbon» é o título do artigo assinado por Alessandra Malito sobre o trabalho de Mário Cruz que, em 22 imagens, retrata pessoas que, devido a circunstâncias várias, se viram forçadas ou optaram por viver em locais abandonados na cidade de Lisboa - locais que sustentam esse «telhado inexistente» ou frágil, para cada um, na tradução livre do título do artigo, que provém do original «Roof», do fotógrafo.

Empresas, fábricas ou as típicas «villas» de Lisboa tornaram-se nos lares de casais cuja vida mudou de um momento para o outro, na maioria dos casos devido a situações de desemprego, disse à Lusa Mário Cruz.

«Roof» é o nome do projeto que Mário Cruz começou a delinear em 2013, mas que não realizou de imediato por dificuldade de comunicação com as pessoas que pretendia fotografar, uma vez que o local onde moravam era o segredo delas, acrescentou o fotógrafo.

«Muitos dos seus familiares, colegas e amigos nem sequer sabiam das suas vidas atuais, e é muito complicado chegar ao pé das pessoas e pedir-lhes para deixarem fotografar a realidade por que estão a passar, ainda por cima, sendo uma realidade que pretendem esconder», explicou Mário Cruz.

O repórter, no entanto, nunca deixou de pensar no projecto, pelo que decidiu começar a trabalhar nele logo no início de 2014.

Em Lisboa há cerca de 2.800 locais parcialmente abandonados e perto de 1.800 completamente abandonados. Foi nestes locais que Mário Cruz começou por procurar "pequenos toques de presença humana".

«Peças de roupa estendidas, uma janela arranjada ao pé de outra em ruínas... Algo que indiciasse presença humana», frisou Mário Cruz.

O fotógrafo queria apenas captar com a sua objetiva pessoas que, devido à alteração de circunstâncias de vida, ficaram sem casa. Nunca quis captar imagens de pessoas que vivem nestes locais, devido a «erros que cometeram na vida», explicou.

Os fotografados são, assim, na sua maioria, pessoas desempregadas e, muitas delas, com poucos apoios sociais.

A falta de apoios sociais é mesmo a maior queixa das pessoas com quem Mário Cruz se cruzou. De todos os casos, há um que o incomoda particularmente: um homem que vive com a sua mulher e sempre que procura apoios sociais, não os obtém por «não parecer um sem-abrigo».

«É uma pessoa que, apesar de procurar as roupas no lixo, se apresenta sempre limpo e lavado, com as roupas limpas, pelo que não consegue obter apoios de ninguém», contou o repórter fotográfico.

Mário Cruz, 27 anos, foi o vencedor do prémio de fotojornalismo da Estação Imagem 2014, com o trabalho «Cegueira recente». Em 2010, quando acompanhou a Cimeira da Nato, em Lisboa, o Financial Times escolheu uma das suas fotografias, com o presidente norte-americano, Barack Obama, para o destaque de primeira página.

Algumas das imagens captadas por Mário Cruz, dos mais frágeis tetos de Lisboa, serão publicadas na edição impressa de segunda-feira de The New York Times International.

Todas elas resultam de um trabalho realizado entre janeiro e outubro de 2014, que o repórter pretende continuar a acompanhar.

«Talvez não consiga acompanhar todos os casos, mas alguns acompanharei certamente», concluiu.