O ministro das Finanças admitiu esta quinta-feira, em Talin, que as reivindicações dos enfermeiros são “muito importantes” e “têm que ser ouvidas”, afirmando-se confiante num entendimento, mas que respeite a “responsabilidade orçamental”, pois o país ainda se debate com restrições.

À entrada para uma reunião informal de ministros das Finanças da zona euro, na capital da Estónia, Mário Centeno, questionado sobre os protestos dos enfermeiros (promovido Sindicato dos Enfermeiros e pelo Sindicato Independente do Profissionais de Enfermeiros), que cumprem esta sexta-feira o último de cinco dias de greve em Portugal, disse entender as reivindicações, lembrando que algumas têm já “décadas”, mas apontou também que “muito tem sido feito pela valorização da administração pública, pelas carreiras”, incluindo neste setor.

Há uma negociação em curso, na qual o Governo está naturalmente empenhado. Aquilo que é preciso compreender, e tenho a certeza que todos entenderão, é que o Governo tem feito um esforço muito grande”, disse, apontando a título de exemplo que “o crescimento de enfermeiros no último ano e meio é muito significativo, para fazer face às necessidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS)”.

Segundo o ministro das Finanças, “há dificuldades específicas em setores determinados, que são já de várias décadas, e que não podem deixar de ser ouvidas e analisadas”, e que, “em sede orçamental, têm necessariamente que ser integradas”.

Aquilo que eu posso garantir, do ponto de vista do Governo, é que a responsabilidade orçamental é muito grande, que todas e todos os portugueses têm exatamente essa perceção e que vamos com certeza chegar a uma plataforma de entendimento e de compressão de como fazer face a reivindicações que são de facto muito importantes e que, como eu disse, têm várias décadas em alguns casos”, reforçou.

Por outro lado, Mário Centeno argumentou que, quando se fala de uma sociedade inclusiva e de um crescimento inclusivo, está-se “obviamente a falar de uma sociedade e de um crescimento que é de todos e para todos, e é nesse perspetiva que tem que ser entendido”, pelo que “não há uma hierarquização de prioridades que não possa deixar de ter em conta toda a restrição que objetivamente ainda existe sobre o país”.

BE pede "passos claros" do Governo

Também esta sexta-feira, a coordenadora do BE, Catarina Martins, falou sobre a greve dos enfermeiros, defendendo que o ministro da Saúde "deve dar passos claros rapidamente" para repor a normalidade e avisando que "fazer restrições na saúde pública é o pior passo para a economia".

À margem de uma ação de pré-campanha para as eleições autárquicas no mercado de Vila Franca de Xira, Catarina Martins foi questionada sobre a convocação de uma nova greve para 3, 4 e 5 de outubro.

Estamos muito preocupados com a situação. Hoje mesmo vamos reunir com o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses", adiantou, acrescentando que o "ministro da Saúde deve dar passos claros rapidamente para que se restabeleça uma situação de normalidade no Serviço Nacional de Saúde".

 

 

Greve com adesão de 92% na quinta-feira 

Os enfermeiros cumprem esta sexta-feira o último de cinco dias de greve nacional e juntam aos vários protestos que têm realizado pelo país uma concentração junto à Assembleia da República, no dia em que se comemoram os 38 anos da criação do SNS.

A adesão à greve foi de 86% no turno da noite desta sexta-feira, disse o sindicalista José de Azevedo, salientando que na quinta-feira os níveis fixaram-se nos 92%, o melhor resultado desde o início da paralisação.

Hoje estamos com 86% de adesão no que diz respeito ao turno da noite, que terminou hoje de manhã. Na quinta-feira, [quarto dia de greve], a adesão fixou-se nos 92%”, o melhor resultado desde o início da paralisação, adiantou à agência Lusa o presidente dos Sindicato dos Enfermeiros (SE).

José de Azevedo disse “esperar que a adesão à greve venha a ser superior aos 86% nos próximos turnos" devido à concentração de hoje junto à Assembleia da República, que vai contar com a participação de enfermeiros de todo o país.

Desde o início da paralisação várias cirurgias programadas foram adiadas e muitas consultas canceladas.

Os enfermeiros reivindicam a introdução da categoria de especialista na carreira de enfermagem, com respetivo aumento salarial, bem como a aplicação do regime das 35 horas de trabalho para todos os enfermeiros, mas a Secretaria de Estado do Emprego considerou irregular a marcação desta greve, alegando que o pré-aviso não cumpriu os dez dias úteis que determina a lei.

Esta irregularidade da marcação determinada pelo Governo pode levar à marcação de faltas injustificadas aos enfermeiros que aderiram ao protesto.

O braço de ferro entre enfermeiros e Ministério da Saúde prolonga-se desde julho, com a reivindicação da integração da categoria de especialista na carreira.

Sobre a convocação pelo Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) de uma greve para 3, 4 e 5 de outubro, José de Azevedo disse à Lusa estar “disponível para o diálogo”, adiantando que vai aguardar pela marcação de uma reunião.

A decisão do SEP foi tomada após uma nova reunião com o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, que o sindicato considerou inconclusiva, apesar dos compromissos assumidos pela tutela sobre as 35 horas semanais de trabalho para todos os enfermeiros, a reposição das horas de qualidade e o aumento dos salários para os enfermeiros especialistas.