A eurodeputada do PSD e ex-ministra da Ciência Maria da Graça Carvalho reconhece que os bolseiros «foram apanhados de surpresa» pela «redução drástica» das bolsas e defende incentivos fiscais para as empresas que contratem investigadores.

«A maior parte dos candidatos foi apanhada de surpresa», afirmou à agência Lusa, apontando que a redução «de forma drástica» do número de bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento não foi acompanhada, no devido tempo, pela atribuição de outras bolsas.

«Criou-se uma instabilidade muito grande nos bolseiros», assumiu, acrescentando que a opção do Governo foi, a partir de 2013, «dar prioridade» a bolsas incluídas em programas doutorais e projetos de investigação, limitados a determinadas áreas científicas, sobretudo tecnológicas, em detrimento das bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento, que abrangem todas as áreas científicas.

De acordo com os resultados divulgados há uma semana pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, entidade pública que atribui o apoio financeiro à investigação, o concurso de 2013, com efeitos práticos em 2014, concedeu menos 900 bolsas individuais de doutoramento e menos 444 bolsas de pós-doutoramento face a 2012.

Segundo a eurodeputada social-democrata, «o financiamento não diminuiu», apenas foi redistribuído, «gerido de forma diferente».

Contudo, admitiu que, «em períodos em que há desemprego e crise económica», as «reformas mais radicais deveriam ser feitas de uma forma mais gradual», ao longo de três a quatro anos.

«O número total de bolsas tem que aumentar e ser suficiente para que não haja este pânico que se criou nos bolseiros», sustentou, assinalando que Portugal vai poder começar a beneficiar, este ano, de 20 mil milhões de euros de fundos europeus para a competitividade, ciência e inovação.

A ex-ministra da Ciência e do Ensino Superior, no Governo de coligação PSD-CDS/PP de Durão Barroso, considera que, para sair da crise, Portugal tem de «continuar a financiar a ciência, para manter a excelência académica», e «criar condições para que as empresas se tornem cada vez mais inovadoras e consigam absorver os quadros altamente qualificados» que estão a ser formados.

Neste contexto, Maria da Graça Carvalho defende «menos burocracia», regras de propriedade intelectual «mais simples e menos onerosas», financiamento para as pequenas e médias empresas e incentivos fiscais.

«Na reforma do IRC poderíamos ter dado benefícios às empresas mais inovadoras ou que têm doutorados», advogou, embora assinalando que «não há consciência» por parte dos empresários em «levar para as empresas pessoas altamente qualificadas».

«Só temos três por cento dos doutores na economia», frisou.

A eurodeputada e ex-ministra participa hoje, em Lisboa, na conferência «Ciência, Cultura e Inovação», organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

A iniciativa conta ainda com intervenções do neurocirurgião João Lobo Antunes e do geneticista britânico Paul Nurse, Prémio Nobel da Medicina de 2001 e presidente da Royal Society.