Enquanto secretário-geral da ONU, António Guterres defendeu hoje que o investimento de Portugal na diversidade tem de continuar com “grande persistência”, lembrando que subsistem no país manifestações xenófobas e racistas.

O ex-primeiro-ministro português marcou presença nos “Encontros de reflexão comemorativos dos 50 anos da fundação da Comunidade Islâmica de Lisboa”, que decorrem na Mesquita Central de Lisboa.

Num discurso improvisado em português, Guterres disse que “em muitas sociedades europeias não houve este investimento”, nomeadamente por parte de governos.

A diversidade é uma fonte de riqueza, não é uma ameaça (…). [Mas] só por si não garante a harmonia de uma sociedade. Para que haja efetivo pluralismo e uma coesão, tem de haver um grande investimento"

Referia-se a governos, autarquias, líderes religiosos e sociedade civil. Apesar de realçar o investimento feito em Portugal em prol da diversidade, o secretário-geral das Nações Unidas lembrou que ainda há no país manifestações de xenofobia, racismo e ódio contra muçulmanos.

[O investimento realizado] tem de ser continuado, e com grande persistência”.

Na sua intervenção, que antecedeu a sessão de encerramento, ao contrário do que previa o programa, o secretário-geral das Nações Unidas assinalou que o radicalismo “é uma perversão do pensamento religioso, que não é monopólio do Islão”, dando como exemplos os fundamentalismos budista e cristão.

Marcelo condecora Comunidade Islâmica de Lisboa

Lusa

Também esta sexta-feira, na mesma cerimónia, o Presidente da República condecorou a Comunidade Islâmica de Lisboa, com a Ordem da Liberdade.

"O Islão está na alma de Portugal", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, à entrada da cerimónia na Mesquita Central de Lisboa, que contou ainda com a presença do presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, e os antigos presidentes da República António Ramalho Eanes, Jorge Sampaio e Cavaco Silva.

Mais tarde, numa intervenção de dez minutos, Marcelo Rebelo de Sousa retomou esta mensagem, declarando: "Podemos, de quando em vez, não ter a consciência da profunda herança deixada pelos árabes na sociedade e na cultura portuguesa, mas ela foi e continua a ser muito importante".

Fernando Pessoa referia que a alma árabe é o fundo da alma portuguesa, o que vai muito além de um conjunto de palavras de raiz árabe existente no nosso léxico. Com efeito, a presença árabe e a herança islâmica permitiram que se desenvolvesse um espírito ecuménico e de abertura entre os portugueses, que resulta de uma convergência de diferentes culturas e credos".

O chefe de Estado defendeu que o princípio da liberdade religiosa consagrado na Constituição está "irreversivelmente enraizado" na sociedade portuguesa. "Negá-lo é negar a nossa natureza", considerou.

Depois, elogiou a Comunidade Islâmica de Lisboa, "a primeira comunidade islâmica na Península Ibérica após a retirada dos árabes deste canto da Europa".

Um exemplo importante num mundo onde grassam exemplos de incompreensão pelo próximo, que levam a extremismos e violência, por colocar a tónica numa mensagem de paz, de abertura, de diálogo e de ecumenismo e atuar de forma concreta e empenhada na resolução de problemas sociais. Saibamos todos nós transmitir às futuras gerações estes valores humanistas que são, por natureza, os valores do Islão. Saiba a Comunidade Islâmica de Lisboa continuar a promover estes mesmos valores e consigam as futuras lideranças da comunidade respeitar e prosseguir o legado dos seus fundadores".

O Presidente da República manifestou o desejo de que, em 50 anos, o centenário desta comunidade seja festejado "com o mesmo entusiamo pela mensagem de diálogo, ecumenismo, dádiva e paz, no fundo, de liberdade religiosa, de liberdade como um todo, que caracteriza o Islão em Portugal, e que bem legitima a condecoração desta instituição com a Ordem da Liberdade", e terminou o seu discurso em árabe: "Que a paz e a bênção de Deus estejam convosco".

A Ordem da Liberdade destina-se a distinguir "serviços relevantes prestados em defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e à causa da liberdade".