Mil e duzentos voluntários vão participar na recontagem dos sem-abrigo na cidade de Lisboa, a 14 de maio, adiantou hoje fonte Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que promove este mapeamento pela segunda vez em ano e meio.

Na primeira contagem, realizada a 12 de dezembro de 2013 e que envolveu cerca de 800 voluntários, foram sinalizados 509 sem-abrigo nas ruas de toda a cidade de Lisboa e 343 que, nessa noite, dormiram em Centros de Acolhimento.

A recontagem, que terá a colaboração das juntas de freguesia e das associações que trabalham com a população sem-abrigo, vai decorrer entre as 21:00 e as 24:00, seguindo a mesma metodologia usada em 2013, mas com mais 400 voluntários a percorrerem as 7.000 ruas da capital.

“Vai ser quase igual [à primeira contagem]. A única alteração é que vamos acolher mais voluntários. Quando fizemos a primeira contagem abrimos a possibilidade de voluntários se inscreverem e tivemos de não aceitar alguns, porque não tínhamos condição de coordenação de equipas para o fazer. Neste momento assumimos que podíamos fazer o acompanhamento de 1200 voluntários o, que nos permitirá [ter] mais olhos sobre a realidade”, explicou à agência Lusa a administradora da Ação Social da SCML, Rita Valadas.


A responsável diz que a recontagem estava prevista para o final deste ano, com o objetivo de se avaliar a evolução da situação dos sem-abrigo em Lisboa, mas foi antecipada devido às condições meteorológicas, uma vez que este mês é mais “ameno” e fora do pico do inverno e do verão, épocas em que esta população é mais volátil e inconstante.

“À semelhança da primeira edição, a base geográfica de referência é a freguesia. Esta iniciativa já foi apresentada às instituições parceiras, no âmbito do núcleo que trabalha com os sem-abrigo, e às juntas de freguesia”, afirmou Rita Valadas.


As entidades “têm envolvidas todas as instituições que trabalham no eixo de planeamento com os sem-abrigo e participações diferentes das juntas de freguesia, até porque algumas têm o fenómeno muito presente e outras nem por isso”, explicou.

A recontagem visa avaliar o número, a tipologia e eventuais alterações da população sem-abrigo da capital, neste ano e meio.

A administradora da Ação Social da SCML destacou que, desde dezembro de 2013 até agora, os representantes da Santa Casa “não estiveram de braços cruzados” e que foram implementadas medidas no terreno, com vista a melhorar as condições da população sem-abrigo da capital.

“Organizámos a estrutura, definimos os eixos de atuação com a população sem-abrigo, e responsabilizamos por eixo uma instituição. Temos uma sede, no Cais do Sodré, de onde parte todo o trabalho com esta população”, frisou, acrescentando que a recontagem pretende também “medir até que ponto há reconhecimento disto e [se] as pessoas [se] sentem mais protegidas e mais próximas das instituições, e encontrar soluções”.


AMI atendeu 1.511 sem-abrigo em 2014

A Assistência Médica Internacional, por seu turno, atendeu 1.511 sem-abrigo no ano passado, dos quais 515 pela primeira vez, revela o relatório anual da AMI divulgado esta quarta-feira, que aponta uma descida de 10% no número de casos apoiados face a 2013.

Desde 1999, ano em que a AMI começou a fazer esta contagem, já foram apoiadas 10.405 pessoas em situação de sem-abrigo, o que representa uma média de 650 novos casos por ano, adianta o Relatório de Atividades e Contas 2014 da AMI.

Em 2014, a AMI registou uma descida de 6% no número de novos casos atendidos (546 em 2013 e 515 em 2014) de pessoas que se enquadram na tipologia de Sem-Abrigo definida pela Federação Europeia das Organizações que Trabalham com a População Sem-Abrigo.

Esta definição contempla situações de pessoas que estão em centros de acolhimento de emergência ou temporário, que vivam em quartos alugados, em barracas ou em casas sobrelotadas.

Dos novos casos atendidos, 134 eram mulheres (26%), representando um aumento de 116% relativamente a 1999, altura em que seriam 62, referem os dados da AMI.

No total, 1.511 sem-abrigo frequentaram os equipamentos sociais no ano passado (11% do total da população atendida), menos 10% face a 2013.

A AMI explica que “esta redução poderá estar relacionada com a melhoria de articulação institucional com a criação dos Núcleos de Planeamento e Intervenção com os Sem-Abrigo no contexto da estratégia nacional para as pessoas sem-abrigo que tem vindo a ser operacionalizada no contexto das redes sociais”.


A maioria destas pessoas (76%) são homens, com idades entre os 40 e os 59 anos (52%), seguidos dos 30 aos 39 anos (18%).

A maior parte destas pessoas (27%) vive na rua, em escadas, átrios, prédios, carros abandonados, contentores e estações, 19% pernoitam em quartos e pensões, 17% residem temporariamente em casa de familiares ou amigos, 11% vivem em centros de emergência ou destinado a vítimas de violência doméstica, 9% em habitações inadequadas e 12% noutros locais não especificados.

A naturalidade da população sem-abrigo que procurou apoio nos equipamentos sociais continua a ser sobretudo portuguesa (78%), seguindo-se os naturais dos PALOP (13%), Outros Países (7%) e de países da União Europeia (2%).

As suas habilitações literárias são baixas, já que a maioria tem o 1º ou 2º ciclo de escolaridade (50%).

Com frequência do 3º ciclo, encontram-se 17%, 8% tem frequência do ensino secundário e 2% do ensino superior.

Os dados referiam também que 4% não tem qualquer escolaridade e 61% não possui formação profissional.

A grande maioria da população sem-abrigo (72%) encontra-se sozinha (solteira, divorciada ou viúva) e 13% é casada ou vive em união de facto.

O grupo das mulheres regista uma maior percentagem de casadas e em união de facto (24%) do que o grupo dos homens (9%).

Já o grupo dos homens regista uma maior percentagem de solteiros, divorciados e viúvos (76%) do que o das mulheres (57%).

As mulheres recorrem com mais frequência ao apoio de familiares e amigos (58%) do que os homens (39%). Por outro lado, a mendicidade é um recurso mais frequente nos homens (16%) do que nas mulheres (7%).

Segundo o documento, a maior parte da população sem-abrigo que recorreu à ajuda da AMI refere encontrar-se nesta situação há mais de 4 anos (22%) ou entre 1 e 2 anos (11%).