Manuel Clemente, patriarca de Lisboa, afirma no seu novo livro «A Fé do Povo», que «a religiosidade popular é sobretudo uma vivência de fé» numa cultura, e defende o aproveitamento da «riquíssima imaginária» a ela ligada.

O livro «A Fé do Povo. Compreender a religiosidade popular», publicado pela Paulus Editora, é apresentado pelo autor como «uma contribuição» para a reflexão sobre a religiosidade popular iniciada em 1968 pela Igreja sul-americana, em Medellín, na Colômbia, e reúne vários escritos seus que se encontravam dispersos.

A primeira parte deste livro, «Compreender a religiosidade popular», foi inicialmente publicada, sob um título análogo, em 1978, enquanto a segunda parte, «Religiosidade popular: Desafio e contributo para a fé cristã», foi editada cerca de nove anos depois.

A obra inclui ainda no capítulo «Apontamentos finais», vários textos de Manuel Clemente publicados na revista Família Cristã, entre julho e novembro de 2001, sobre o mesmo assunto.

«Distanciados no tempo, [todos estes textos] revelam também a sequência da reflexão do autor», escreve Manuel Clemente que apela, na introdução, à «benevolência do leitor».

Atesta o patriarca de Lisboa que «a religiosidade popular aparece como importantíssimo fenómeno social e eclesial» e contesta a ideia de que não tenha «grande formação intelectual», esgotando-se «nas crenças e nas práticas».

Manuel Clemente, todavia, alerta para «o grande perigo da religiosidade popular [que] é não passar dos sinais à realidade, da terra ao céu, do humano ao divino, e ao divino cristão, misericordioso e gratuito».

Na introdução, o eclesiástico afirma que «a religião é popular, porque é de Deus e é de cada povo» e prossegue: «Em tensão libertadora, pois o que em Cristo conclui e renova a criação não permite que esta se feche em si mesma, antes a abre insistentemente àquele horizonte em que a terra se faz Céu e o mundo se faz reino».

Esta é a temática que os diferentes textos deste livro abordam, como aponta Manuel Clemente, que alerta para «o valor catequético da imagem», à qual a religiosidade popular «se afeiçoa».

No seu entender, «à sombra de uma reforma necessária, têm-se encoberto muitos gostos pessoais de maior ou menor requinte, muita inclinação litúrgica abstratizante. E, o que é mais grave, têm-se perdido aspetos positivos».

O autor exorta para o aproveitamento «da riquíssima imaginária que presencializa os mistérios da vida, morte e ressurreição do Senhor, os passos da vida de Nossa Senhora ou a figura idealizada de tantos construtores do Reino» [de Deus], tanto mais que se vive numa «autêntica civilização da imagem».