O presumível homicida de S. João da Pesqueira Manuel Baltazar admitiu esta terça-feira à tarde lembrar-se de ter dado um tiro à ex-mulher, em abril do ano passado, mas assegurou não ter tido intenção de a matar.

Segundo a acusação, Manuel Baltazar, de 61 anos, disparou uma arma tipo caçadeira contra a filha e a ex-mulher (Sónia Baltazar e Maria Angelina Baltazar, que ficaram feridas) e duas familiares desta (a tia e a mãe, Elisa Barros e Maria Lina Silva, que morreram), em Valongo dos Azeites.

Conhecido por Palito, o homem começou a ser julgado no Tribunal de Viseu e, quando interrogado de manhã pela juíza presidente do coletivo, admitiu ter disparado intencionalmente contra a tia da ex-mulher e a ex-sogra.

No entanto, negou que pretendesse atingir a ex-mulher, que não soube explicar como ficou ferida, e a filha, da qual disse só se ter apercebido quando esta agarrou o cano da arma.

À tarde, questionado pelo seu advogado, reconheceu ter ouvido a sua ex-mulher depois de ter dado o tiro a Elisa Barros.

«Você lembra-se que deu um tiro à sua mulher?», perguntou o advogado Manuel Rodrigues, tendo Manuel Baltazar abanado a cabeça a indicar que sim e começado a chorar, atitude que repetiu várias vezes ao falar de Maria Angelina.

Considerado um dos melhores caçadores da região, Palito disse que conseguia atingir um javali «a 60/80 metros de distância» e que, se quisesse, podia ter matado a mulher, que estava a quatro ou cinco metros, mas optou por atirar para as pernas.

«Eu nunca a quis matar», assegurou.

Também relativamente à filha Sónia Baltazar, esclareceu que afinal viu-a dirigir-se a si e que ela disse «pai, não faças mal». Referiu que também não a pretendia matar, até porque, se fosse essa a sua intenção, bastava «puxar o gatilho» quando ela estava agarrada à arma.

A juíza presidente estranhou que, apesar de ter feito as mesmas perguntas de manhã, as respostas da tarde tenham sido diferentes.

«O homem está bloqueado, vocês veem como reage quando se fala da mulher», justificou o advogado Manuel Rodrigues aos jornalistas no final da sessão, considerando que o problema de Manuel Baltazar «é que tem uma paranoia obsessiva pela mulher».

A tese da defesa é a de que o tiro destinado à ex-mulher «não foi com intenção de a matar» e que o facto de a filha ter ficado ferida «foi acidental», explicou.

Durante a tarde, foi ouvida Maria Angelina, que afirmou que ela, a filha, a tia e a mãe estavam todas juntas a fazer bolos para a Páscoa num forno da casa que era dos seus avós e de que Elisa Barros tomava conta.

Manuel Baltazar tinha argumentado que os seus atos aconteceram na sequência de uma provocação de Elisa Barros, com quem se cruzou num caminho quando ia para casa de carro e que culpava de ter influenciado Maria Angelina para que se divorciasse dele.

Maria Angelina contou que, cerca das 16:00, quando estava a vigiar o forno cheio de bolos, ouviu «um estrondo muito forte» vindo da divisão ao lado, onde estavam a filha, a tia e a mãe.

Quando chegou à porta entre as duas divisões, viu a sua tia com os braços cruzados sobre o peito e, logo de seguida, sentiu que foi atingida, tendo depois visto o ex-marido com a arma ligeiramente apontada para baixo, acrescentou.

A partir desse momento, disse não ter visto mais nada, uma vez que ficou imobilizada no chão, mas que ouviu mais dois tiros.

Além dos quatro crimes de homicídio qualificado (dois dos quais na forma tentada), o arguido está acusado de um crime de detenção de arma proibida e outro de violação de proibições ou interdições.

O julgamento prossegue na segunda-feira de manhã, com a continuação do depoimento de Maria Angelina. Deverá também ser ouvida a filha, Sónia Baltazar.