Cerca de 200 alunos carenciados de escolas em Odivelas ainda não têm os manuais escolares, que deveriam ter recebido através do Apoio Social, apesar de as aulas terem começado há mais de mês e meio.

No agrupamento de Escolas n.º 1 de Odivelas, ainda há estudantes a chegar às aulas sem livros. Tiago Nunes, dono da papelaria Joaninha, disse que ainda só conseguiu dar resposta a cerca de 200 dos 400 pedidos de alunos carenciados.

O diretor escolar, Jorge Nunes, explicou à agência Lusa que este ano «quadruplicaram o número de requisições» para atribuição de manuais a alunos com dificuldades económicas, devido à crise económica mas também porque o agrupamento conta agora com mais escolas:

No total, são 2.850 alunos, sendo que cerca de 1.400 frequentam o 2.º e 3.º ciclos e o secundário. «Metade destes alunos tem Apoio Social Escolar (ASE). Ou seja, foram emitidas cerca de 600 requisições», contou à Lusa.

Tiago Nunes recebeu a maioria das requisições, mas não está a conseguir responder a todos os pedidos. A filha de António Canhoto é um destes casos. Por estar no escalão A, teve direito a 140 euros para comprar os manuais do 11º ano. «Como o dinheiro não ia chegar para comprar os livros para as seis disciplinas, optei por comprar dois em 2º mão. Os restantes ainda estou à espera que a papelaria entregue», lamentou.

A nota de encomenda de António Canhoto é a 159 e a requisição data de 17 de setembro. «Estou a denunciar esta situação pela minha filha e por toda a comunidade de alunos que ainda não recebeu os livros», criticou, considerando que «agora há estudantes de primeira e de segunda categoria: Os que estudam com livros e os que estudam sem livros».

O dono da papelaria diz que é cada vez mais difícil conseguir crédito junto das editoras.

«Nós já avançamos cerca de 12 mil euros e a escola já nos pagou cerca de 7.500 euros. Com esse dinheiro que recebemos fizemos novos pedidos», explicou adiantando que antes havia muitos pais que avançavam com o dinheiro e depois eram ressarcidos nas escolas.

O diretor do agrupamento decidiu este ano mudar os procedimentos e emitir requisições para todos os alunos abrangidos pela ação social. O objetivo era conseguir controlar melhor a situação, porque «alguns alunos ficavam muito tempo sem ir levantar os livros».

A afirmação é confirmada por Tiago Nunes que recorda uma situação já ocorrida este ano: «Recebi um telefonema de uma professora a queixar-se porque tinha dois alunos sem livros e que estavam identificados como tendo falta de aproveitamento escolar. Mas, a verdade é que, num dos casos, os livros estão aqui há 15 dias e ainda não os vieram levantar».

O proprietário, que estima que o «valor total das encomendas poderá ascender a cerca de 30 mil euros», acredita que no início da próxima semana conseguirá entregar livros a mais 30 ou 40 alunos.

«No próximo ano, as livrarias terão de dizer se têm capacidade para dar resposta aos pedidos. Nós temos o dinheiro e até queríamos pagar mas as papelarias disseram que só podiam receber quando emitissem as faturas", garantiu o diretor.

Fonte do Ministério da Educação disse à Lusa que "as verbas da ASE foram atribuídas e estão a ser geridas pelas escolas para garantir o apoio aos alunos" e que o agrupamento em questão tem a situação financeira regularizada.

Lembrando que «o livro não é o único instrumento de trabalho», Jorge Nunes acredita que, até ao final do mês, as situações estarão resolvidas e garante que os alunos não serão penalizados pela falta de material.

Associações de pais e de diretores de escolas, contactados pela Lusa, disseram não conhecer situações semelhantes no país, sublinhando que a «Ação Social Escolar deve ser dos melhores setores a funcionar no Ministério da Educação», escreve a Lusa.