Um dia depois de o parlamento ter aprovado a principal reivindicação da manifestação marcada para esta terça-feira – o congelamento das propinas -, os estudantes do ensino superior não deixaram de sair à rua e, do protesto, também fizeram um festejo.

Isto também se deve à dinâmica que os estudantes criaram. É também uma forma de festejo, de dizermos o O.K. a esta medida, mas não chega”, disse à Lusa Mónica Fonseca, aluna da Escola Superior de Educação do Porto, afirmando que as universidades e politécnicos precisam de “mais ação social escolar, mais cantinas” e outras medidas, que faziam igualmente parte das reivindicações dos estudantes que se manifestaram em Lisboa, e que esperam ver acolhidas pelo Governo.

Queremos que nos ouçam, que o parlamento nos ouça e sabemos que a correlação de forças aqui dentro é muito diferente de há quatro anos”, acrescentou a estudante.

Do Largo do Carmo à Assembleia da República, a cerca de uma centena de estudantes que iniciou a marcha, foram-se juntando outros pelo caminho e eram já perto de duzentos os manifestantes, quando o protesto chegou ao destino.

Pelas ruas do percurso definido foram entoando palavras de ordem, gritadas aos megafones, e que também se podiam ler nas faixas que seguravam.

Ruidosos, os estudantes chamaram a atenção de comerciantes e moradores, que se assomavam a portas e janelas, mas também de turistas, que, surpreendidos, paravam e fotografavam o protesto.

Miguel Tiago, deputado do Partido Comunista Português (PCP), que se juntou por uns instantes aos manifestantes, quando estes se concentraram em frente à escadaria do parlamento, defendeu que, mesmo depois de os deputados já terem aprovado aquela que era a principal reivindicação dos alunos do ensino superior, a manifestação continua a fazer “todo o sentido”.

Ainda assim, lamentou que tenha sido chumbado o ponto da proposta do PCP que defendia que o congelamento se devia fazer ao nível da instituição, ou seja, que nenhuma universidade ou politécnico público poderia aumentar propinas face àquele que foi o valor cobrado no atual ano letivo, o que impediria as instituições que ainda não o fazem de cobrar o valor máximo.

[ O que foi aprovado] é melhor do que nada, mas é muito pouco, tendo em conta a situação que as pessoas estão a atravessar em Portugal, e que os estudantes do ensino superior sentem, por terem de financiar o ensino, substituindo-se ao Estado. Justifica-se não só que a luta continue, mas que se intensifique, para que possamos ir ainda mais além”, defendeu o deputado comunista.

Miguel Tiago referiu ainda que as propinas não eram “a única bandeira” da manifestação de hoje, enumerando o reforço da ação social escolar, a reposição do passe, a simplificação do processo de obtenção de bolsas, como “um conjunto de matérias que fazem com que seja absolutamente justificável, até urgente, que os alunos do ensino superior participem na luta”.

Também Luís Monteiro, deputado do Bloco de Esquerda, e o mais jovem do parlamento, marcou presença junto dos estudantes, olhando para a manifestação “com agrado”, lembrando que já esteve daquele “lado da barricada”.

Não é, nem tem o número de estudantes necessário para uma força maior, mas as coisas fazem-se caminhando. A verdade é que o ensino superior nos últimos anos foi altamente instigado pelas políticas de direita. Tivemos cortes orçamentais, menos bolsas, propinas mais altas. Esperamos também que com esta nova solução parlamentar haja novas respostas e tem havido novas respostas”, declarou.

Também o deputado bloquista defendeu a pertinência do protesto, dando como exemplo os atrasos nos pagamentos das bolsas e a sua atribuição em número insuficiente, para sublinhar que os estudantes têm motivos para sair à rua.

As reivindicações dos estudantes foram transpostas para um abaixo-assinado, que, segundo os alunos presentes, recolheu a nível nacional mais de sete mil assinaturas e que será entregue no parlamento, para que as matérias sejam discutidas pelos deputados.

O parlamento aprovou na segunda-feira, na especialidade, uma proposta do PCP para a suspensão da atualização das propinas no ensino superior.

O ministro da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior, Manuel Heitor, disse hoje que o congelamento das propinas tem um "impacto relativamente pequeno", pois apenas cinco instituições fixaram as propinas no valor máximo, o que abrange 80 mil alunos.