Sentada no alcatrão, Isaura Martins, de 38 anos, é a cara do desalento de quem mora no Caminho das Laginhas, freguesia do Monte, concelho do Funchal, onde esta noite o fogo espalhou o pânico e a destruição.

Face, braços e pernas pintados de preto sobressaem no corpo da mulher, que chora os danos que o fogo provocou na sua casa.

«Só quero que me deixem a casa como estava», repetiu Isaura, enquanto pedia que espreitassem a filha, de 11 anos, a dormir dentro de um carro.

À agência Lusa, a moradora apontou as feridas que o incêndio fez na sua casa, mas também na sua alma. A habitação, que partilha com mais seis pessoas, é hoje preta por dentro e por fora e tem um ar irrespirável.

«Morreram os gatos, as galinhas, os coelhos», disse, repetindo o apelo para que lhe recuperem a casa, como se o pedido ecoasse do Monte até aos corredores do poder, na cidade do Funchal.

Na mesma rua, Dulce Vieira, de 54 anos, explicou como, de repente, todos desceram o Monte com medo de que as chamas lhes levassem, também, a vida.

«Era morrer ou viver, éramos todos a fugir a pé», afirmou, cara e olhos vermelhos, com as lágrimas que teimavam em desprender-se, ao recordar também que ninguém apareceu para ajudar.

À Lusa, disse que ficou sem nada do que rodeava a casa, cujos vidros estilhaçados revelam a força do lume que a rondou: «Fiquei sem jardim, tinha tanta coisa plantada».

«Parecia o fim do mundo», adiantou, convicta que a expressão é a melhor imagem do que viu.

O incêndio, que deflagrou às 02:30 de sexta-feira no Monte e atingiu as freguesias de São Roque e Santo António, deixou um mar de destruição, que a manhã de hoje deixou visível. Na paisagem, antes verde, agora cinzenta, sobressaem casas queimadas, árvores tombadas, postes de eletricidade destruídos.

Pelo caminho, equipas da Empresa de Eletricidade da Madeira procuram restabelecer a energia, mas nalgumas zonas também falta água, telefone ou televisão por cabo, dizem os residentes. Os mesmos que, pela estrada fora, procuram inteirar-se de fumo que sai das entranhas da terra e que temem poder ser, de novo, ameaça.

Um morador destacou à Lusa a sucessão de explosões que ouviu, presumivelmente das botijas de gás. Seriam, mais coisa menos coisa, 03:00.

Antes, Carlos Freitas, de 37 anos, estaria a deixar a casa que partilha com a mãe e irmã no Caminho do Monte. De nada valeu ter deitado «água na telha».

«Vieram aquelas faíscas de vento», resumiu Carlos, que saiu com a roupa que ainda mantinha no corpo. A casa é um amontoado de destroços.

A Casa dos Romeiros, ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Monte, também foi destruída. Do espaço, que acolhia o museu do beato Carlos da Áustria, falecido em 1922, na Madeira, onde se exilou, foi possível retirar todas as peças de arte, informou o pároco do Monte, Giselo Andrade. Já as fotografias não, mas são recuperáveis, afiançou.

A situação levou a câmara a ativar o Plano Municipal de Emergência e Proteção Civil às 18:00 de sexta-feira.

Esta noite, 200 utentes do Hospital dos Marmeleiros foram retirados e colocados no quartel do Exército no Funchal e no Hospital Dr. Nélio Mendonça. Dezassete pessoas desalojadas foram para residenciais na cidade.

Mais de uma centena de homens, de várias corporações da ilha da Madeira, estão envolvidos no combate às chamas.