O presidente do Governo Regional da Madeira confirmou esta quarta-feira de manhã que três idosos morreram na sequência do incêndio em Santa Luzia, na Madeira. Em conferência de imprensa, Miguel Albuquerque referiu que só nesta terça-feira deram entrada 327 pessoas nos serviços de urgências na região. 

As vítimas são pessoas idosas que foram "apanhadas pelo fogo", em Santa Luzia.

Infelizmente, temos a lamentar três mortes: pessoas idosas que foram apanhadas pelo fogo que lavrou em Santa Luzia. Naquela área foram também afetadas duas casas."

Miguel Albuquerque adiantou que, durante as últimas horas, 327 pessoas tiveram que receber assistência nos serviços de urgência devido a queimaduras e problemas respiratórios. 

Entraram nas urgências, nas últimas horas, 327 pessoas, sobretudo com queimaduras e intoxicações. Dessas 327, 247 já tiveram alta e ficaram internadas para observação 80 pessoas", referiu o Presidente. 

Para já, Miguel Albuquerque considera que a situação está controlada. Às 12:00 deverão chegar três aviões e 80 homens e mulheres enviados pelo Governo português para ajudar a combater os incêndios que ainda lavram na ilha. 

Casas danificadas

Miguel Albuquerque explicou que o Governo Regional está a fazer um levantamento das casas que ficaram danificadas, devido aos incêndios, em parceria com as Juntas de Freguesia. 

Na terça-feira, os números apontavam para 37 casas queimadas pelas chamas, no entanto, Miguel Albuquerque refere que "há situações muito díspares" e que o levantamento tem que ser rigoroso: 

O levantamento tem que ser correto: o que é um dano integral numa casa e o que é um dano parcial, que pode ser reparado. Quais são as casas onde as famílias residiam e quais são as casas que estavam abandonadas", disse o governante. 

O Governo Regional deverá financiar apenas as casas onde residiam famílias, que perderam a casa "por infortúnio". O levantamento que está a ser feito tem em consideração as necessidades das famílias que residiam em determinada família. 

Miguel Albuquerque deixou claro que não vão ser financiadas recuperações de casas que estavam ao abandono: 

Nós não vamos financiar a recuperação de casas que estavam abandonadas, seja por questões de herança ou de recuperação alienação nos casos do mercado do imobiliário."

Ainda na manhã desta quarta-feira, o Governo Regional da Madeira vai reunir-se de emergência na sede do executivo, disse à agência Lusa fonte da presidência do governo.

A reunião realiza-se depois de o presidente do governo regional, Miguel Albuquerque, visitar as zonas mais afetadas pelos incêndios, Boa Nova e Choupana.

Miguel Albuquerque informou que o suspeito de fogo posto detido pela Polícia Judiciária na zona de S. Roque ficou em prisão preventiva. Mas que há outros casos. No decurso dos incêndios dois incendiários foram apanhados em flagrante delito.

"Existem outros casos. Outro caso, que será anunciado pelas entidades competentes de outro fogo posto ainda no decurso dos incêndios. Um caso numa quinta específica onde se detetaram incendiários que foram apanhados em flagrante delito. (...) Temos um suspeito que deu início a esta tragédia, mas também, no decurso dos incêndios, foram apanhados pelas entidades policiais dois suspeitos de fogo posto numa situação muito particular."

Bombeiros: faltam meios aéreos por opção política

O presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP), Fernando Curto, afirmou hoje que a inexistência de meios aéreos de combate a incêndios na Madeira foi uma opção política, porque tecnicamente é possível.

Na Madeira não há meios aéreos, porque o anterior Governo Regional entendia que não eram necessários meios aéreos ou porque havia situações climatéricas que não permitiam que os helicópteros médios ou pesados ou mesmo os ‘Canadair’ pudessem atuar. A ANBP contrariou sempre essa tese, mas, como é lógico, limitamo-nos a contrariar”, disse Fernando Curto.

Pelo seu lado, o presidente do Governo Regional da Madeira desvalorizou na terça-feira as críticas relacionadas com o recurso a meios aéreos no combate a incêndios de grandes dimensões no arquipélago, considerando que os estudos divergem sobre a sua utilização.

O dirigente da ANBP realçou que, à semelhança de outros no passado, o incêndio florestal que deflagrou na Madeira na segunda-feira e que se alastrou a áreas urbanas teve início numa zona de difícil acesso, onde os bombeiros não podem chegar, nem com meios humanos, nem com meios materiais, pelo que era “mais fácil e proveitoso” que os meios aéreos atuassem logo.

A argumentação que na altura se colocava era que a situação geográfica e as situações dos ventos na Região Autónoma da Madeira não permitiam que esses meios atuassem. Não é verdade, porque quando há esse problema os aviões também não aterram na Madeira. Na altura provámos e justificámos até ao próprio Governo que era um erro não se usarem os meios aéreos, mas pronto, era uma opção política e o Governo nunca optou por ter meios aéreos na Região Autónoma da Madeira”, explicou.

“A questão que se coloca aqui é se o Governo quer ou não investir nisso”, sublinhou.

Fernando Curto destacou ainda que este parecer da ANBP era baseado em opiniões manifestadas por técnicos e especialistas em aeronaves.

Com base nestas opiniões, a ANBP sugeriu que na região estivesse disponível um helicóptero médio polivalente, preparado para uma primeira intervenção rápida no combate a incêndios, mas que também pudesse intervir em caso de problemas de saúde ou outras situações de emergência.

Confrontado na terça-feira com a ausência de meios aéreos na ilha, o presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, desvalorizou a questão.

Eu confesso a minha ignorância. Eu já estudei dois dossiês sobre o assunto”, disse Miguel Albuquerque aos jornalistas, declarando ser “um político”, pelo que não se considera “tecnicamente habilitado” para opinar sobre este assunto.

Contudo, acrescentou que, dos dois relatórios que leu, um apontava que a atuação dos meios aéreos seria “muito condicionada, devido à natureza dos ventos e dos vales” na ilha, enquanto outro “desaconselhava” este recurso, dada a “relação custo/benefício ser completamente desproporcionada”.

Também confrontado hoje com esta questão, o presidente da Câmara do Funchal, Paulo Cafôfo, disse não ser técnico. 

Se me perguntar se tecnicamente é possível, essa resposta não posso dar. Mas, partindo do pressuposto de que tecnicamente é possível o uso de meios aéreos, claro que sim. Evidentemente que seria uma mais-valia”, acrescentou.

Governo disponibiliza alimentação aos animais afetados

A Secretaria Regional de Agricultura e Pescas da Madeira, através da Direção Regional de Agricultura, informou hoje que está a providenciar alimentação aos animais afetados pelos incêndios na região.

A Confederação Agrícola de Portugal (CAP) foi uma das contribuintes, tendo oferecido 15 toneladas de fardos transportados pela Empresa de Navegação Madeirense, de forma gratuita, para a Madeira.

O departamento executivo informou ainda, em comunicado, que “a Direção Regional de Agricultura e Pescas e o Centro de Abate da Região Autónoma da Madeira (CARAM) têm várias equipas no terreno para recolha de animais afetados (vacas, porcos e ovelhas)”, que serão enviados para a Estação Zootécnica, no Concelho do Porto Moniz, zona norte da ilha.

Os proprietários afetados poderão utilizar a linha de emergência criada para o efeito: 291201798 / 291201790, anunciou aquela secretaria.

Irmandade dos Clérigos doa 50 mil euros às famílias

A Irmandade dos Clérigos, concelho do Porto, decidiu doar 50 mil euros para apoiar as famílias afetadas pelos incêndios na Madeira, informou a instituição em comunicado.

Na nota, o presidente da Irmandade, padre Américo Aguiar, aponta que esta é uma "decisão extraordinária" que foi tomada em reunião esta tarde, e que a ajuda será entregue ao bispo do Funchal, António Carrilho.

"Temos consciência de que esta partilha, que agora fazemos com a população da Madeira, ultrapassa as nossas reais possibilidades. É de facto uma decisão extraordinária, mas a situação vivida pelos nossos irmãos madeirenses é também ela extraordinária", refere Américo Aguiar.

O responsável recorda que as imagens das cheias de 2010 "ainda não saíram da memória coletiva", numa altura em que os "irmãos e concidadãos madeirenses sofrem uma nova catástrofe".

"Entregamos esta ajuda material, que é também a ajuda de todos os que nos visitam, ao senhor bispo do Funchal, para que com o seu sentido pastoral possa ir em ajuda dos deslocados e desalojados nesta primeiríssima hora. Queremos que o sofrimento possa ser ligeiramente aligeirado com esta presença", descreve a Irmandade dos Clérigos.