O advogado da família do jovem português Luís Amorim, encontrado morto em Macau em 2007, tentou provar, esta quarta-feira, em tribunal que a tese de homicídio nunca foi investigada.

Foi iniciado, esta quarta-feira, o julgamento da ação interposta pelos pais contra o Governo de Macau por negligência na investigação da morte do seu filho, considerada suicídio, uma tese refutada por uma segunda autopsia feita em Portugal já depois de o caso ter sido arquivado.

Na sessão foram ouvidos dois inspetores da Polícia Judiciária (PJ) diretamente envolvidos com o caso. Ambos negaram que o suicídio tenha sido declarado à partida e que se tenha rejeitado a possibilidade de homicídio, mas admitiram nunca encontrar indícios nesse sentido.

Luís Amorim foi encontrado por baixo da Ponte Nobre de Carvalho no dia 30 de setembro de 2007. Tinha 17 anos.

O advogado Pedro Redinha fez referência a vários indícios de homicídio, como as lesões que o Instituto de Medicina Legal Português considerou incompatíveis com uma queda em altura e depoimentos de amigos referentes a cenários de assassínio.

Para o advogado, vários factos durante o processo apontam para negligência: a lavagem do local logo após a retirada do corpo, informações contraditórias sobre se o jovem foi encontrado com ou sem vida, testemunhos pouco credíveis que acabaram por determinar a sua presença na ponte, inquirições que só aconteceram meio ano depois da morte e relatos de testemunhas que dizem ter sido condicionadas pela Judiciária durante os seus depoimentos.

«Até hoje não tenho uma conclusão se foi suicídio, se foi acidente. De homicídio não temos dados palpáveis, nada indica ser um caso de crime», disse o investigador da PJ Luís Filipe da Rosa Estorninho.

Também o inspetor Porfírio Souza considerou hoje que se tratou «de suicídio ou acidente», apesar de dizer que na altura o «homicídio não foi excluído». Para o responsável, ninguém se arriscaria a atirar o rapaz da ponte ou colocá-lo na avenida, morto ou gravemente ferido, sabendo que há câmaras na ponte.

No entanto, nessa noite as câmaras da Nobre de Carvalho não estavam em funcionamento. As gravações do bar onde o jovem esteve antes - e onde se acredita que algo relevante terá acontecido - também não estavam disponíveis.

Os dois inspetores defendem que Amorim esteve na ponte, já que foram encontradas pegadas das suas sapatilhas e duas testemunhas indicaram que o viram lá. Segundo relataram, duas jovens que, apesar de não conhecerem o rapaz se cruzaram com ele no bar, informaram a polícia que viram Amorim na ponte nessa madrugada.

As jovens dizem ter passado de táxi perto da ponte, pouco tempo antes de o corpo ter sido encontrado, e visto um rapaz parecido ao que viram no bar. No entanto, não afirmaram taxativamente que se tratava do Luís.

Pedro Redinha exibiu algumas fotografias do rosto do jovem e listou alguns exemplos de ferimentos que os médicos legistas de Portugal consideraram incompatíveis com a queda: estrias de arrastamento no pescoço, lesões debaixo dos olhos e uma incisão na testa «que só poderia ter sido provocada por um instrumento perfurante», sendo que não há no local nenhum ponto de embate antes do solo que explicasse essa perfuração.

Estorninho considerou, no entanto, que as lesões - que viu a partir de fotografias - «eram compatíveis com um caso de queda» e que «se fosse agressão haveria hematomas».

Redinha disse que pediu para ouvir 25 testemunhas, a maioria não ouvida pelas autoridades. Segundo o advogado, os amigos trouxeram a lume várias teses, como a possibilidade de ter havido «um incidente grave no [bar] Bex», que Amorim «tivesse sido morto por engano» ou sobre «suspeitas de ligações a máfias ou a tráfico de droga».

No entanto, Estorninho defendeu que a PJ «não obteve informações úteis» e que «os amigos não deram dados concretos sobre a razão [da morte]».