Notícia atualizada às 19:19

O livro «Que Importa a Fúria do Mar», de Ana Margarida de Carvalho, é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores, anunciou a instituição esta quinta-feira.
 
Dos 107 livros admitidos ao concurso, o júri deliberou, «por unanimidade», atribuir o Grande Prémio, no valor de 15 mil euros, ao romance de estreia de Ana Margarida de Carvalho, que já tinha sido finalista do Prémio LeYa e é igualmente finalista do Prémio Fernando Namora, cujo vencedor deve ser conhecido este semana.
 
O júri foi constituído por José Correia Tavares, que presidiu, os catedráticos Annabela Rita, Teresa Carvalho e José Manuel de Vasconcelos, e os escritores Cândido Oliveira Martins e Vergílio Alberto Vieira. O júri reuniu-se hoje pela terceira vez, segundo o mesmo comunicado.
 
A narrativa da obra tem início numa madrugada de 1934, quando ainda se ouvem os ecos da revolta Operária da Marinha Grande, segundo a apresentação da Teorema, que publicou o romance no ano passado.
 
Para esta editora, «Que Importa a Fúria do Mar» é um romance «com uma maturidade literária invulgar que coloca, frente a frente, duas gerações de um Portugal onde, às vezes, parece que pouco mudou». «Brilhante no desenho dos protagonistas e recorrendo a um estilo tão depressa lírico como despojado».

Autora «surpresa» com o prémio

Ana Margarida de Carvalho afirmou à Lusa que o seu romance de estreia «corria o risco de ser ignorado» e ficou «surpresa» por ter vencido o Grande Prémio de Romance e Novela/2013.

Em declarações à Lusa, Ana Margarida de Carvalho disse que, para este romance, contou com o trabalho jornalístico que fez sobre a resistência ao regime de ditadura, anterior ao 25 de Abril de 1974, tendo entrevistado várias pessoas, entre as quais um dos participantes na Revolta dos Marinheiros, na década de 1930.

Ana Margarida de Carvalho sentenciou que o romance, editado pela Teorema, «tem um contexto sociopolítico, mas não é um livro de denúncia ou um romance histórico».

«O romance passa-se em duas épocas, em paralelo, nos anos 1930, a partir da revolta na Marinha Grande, e na atualidade, no século XXI, e é um livro que contém outras fúrias e revoltas, como a dos Marinheiros, e as nossas fúrias quotidianas, conjugais, laborais, etc.».

«Serve-me de pano de fundo, de contexto, onde ponho as personagens em situação, porque, pelo meio, há uma história de amor. Esta é a paisagem histórica do livro, apenas», afirmou.

«O livro fala de dois casais que não se conseguem encontrar, por circunstâncias várias, nomeadamente por o protagonista ter ido parar ao Tarrafal», acrescentou.

O título foi buscá-lo ao poema de uma canção de José Afonso.

A autora está já a preparar um novo romance, «que se passa num outro continente e no século XIX, e em que as pessoas não se conseguem colocar no lugar umas das outras, mas são forçadas a isso», adiantou.

Quem é Ana Margarida de Carvalho?
 
Ana Margarida de Carvalho nasceu em Lisboa, é licenciada em Direito, é jornalista na revista Visão, tendo recebido «sete dos mais prestigiados prémios do jornalismo português, entre os quais o Prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas de Lisboa, do Clube dos Jornalistas do Porto e o da Casa da Imprensa», segundo comunicado da APE.
 
Fez parte da redação da SIC e publicou artigos nas revistas Ler e Marie Claire e no Jornal de Letras, Artes & Ideias.
 
Atualmente, na Visão, desempenha funções de Grande Repórter e faz crítica cinematográfica no roteiro e no sítio na Internet de cinema oficial da revista Final Cut.
 
Ana Margarida de Carvalho lecionou vários «workshops» de escrita criativa, e é autora de reportagens reunidas em coletâneas, de crónicas, de guiões de cinema e autora de uma peça de teatro.
 
Os 107 livros admitidos a concurso formam o segundo volume mais elevado de sempre, de obras a avaliar, em 32 anos de atribuição do galardão. Dos candidatos, 72 eram homens e 32 mulheres, havendo três autores, com dois livros cada, tendo-se registado 54 chancelas editorais. «Um recorde absoluto», segundo o comunicado da APE.
 
Nas suas 32 edições, o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, já foi entregue a 28 autores, de 18 editoras, havendo apenas quatro escritores que bisaram: Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luís e Maria Gabriela Llansol.
 
O Grande Prémio é patrocinado pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, Câmara Municipal de Grândola, Fundação Calouste Gulbenkian, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Instituto Camões e Sociedade Portuguesa de Autores.