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Cais do Sodré: reinventado, reciclado e na moda

Há mais de 50 anos que o Cais do Sodré marca o ritmo da noite lisboeta. Um bar conta a história

Por: tvi24 / CF    |   2011-01-27 16:14

Local de passagem para muitos, ontem marinheiros, hoje aqueles que trabalham em Lisboa e moram nos subúrbios da capital. O Cais, porto de abrigo de intelectuais, imortalizado em fados. Ontem, zona menos nobre da cidade, com prostitutas e criminosos, hoje parte do roteiro da noite lisboeta. Ao Cais do Sodré, nunca faltou vida. E essa vida é agora dada a conhecer.

Em Maio de 1968, o assassino do activista norte-americano, Martin Luther King, passeava-se pela Rua Nova do Carvalho. Uma noite, entrou no antigo Clube Texas, hoje Musicbox, e conheceu uma prostituta, por quem se apaixonou. Após dez dias em Lisboa, acabou por ser detido em Londres por um espião que o seguiu pelo Cais. Na prisão, continuava a escrever cartas à portuguesa.
Esta é apenas uma das histórias que alimenta a mítica do Cais do Sodré. O Musicbox, um dos bares da zona, quis conhecer as suas origens e, durante um ano e meio, os promotores fizeram o reconhecimento da zona, falando com autarcas, párocos, donos de bares, frequentadores e moradores. Há mais de 50 anos, devido ao movimento no Porto de Lisboa, o Cais recebia milhares de marinheiros de todo o mundo, lembra Alexandre Cortez à agência Lusa.

Os velhinhos Tokyo, Jamaica, Olso ou Viking recebiam marinheiros, artistas e intelectuais, mas também espiões, prostitutas e criminosos. «Era tudo casas de alterne, houve uma altura em que isto era mal frequentado. Agora de um lado da rua temos as discotecas e do outro são mais bares», acrescenta Ricardo Gouveia, gerente do Tokyo (antigo Tamisa).

A revolução de Abril também se sentiu na noite

A reviravolta começou após o 25 de Abril, quando a «maior liberdade de música e de expressão» começou a atrair um público que queria, sobretudo, dançar ao som do que antes não podia ouvir livremente.

Hoje, para Ricardo, o sucesso deve-se à «grande mistura», visível à primeira vista: na música, nas idades, que podem ir «dos 18 aos 80», nos estilos musicais e nos clientes, que vão desde universitários a jornalistas, actores e músicos.

Fernando Pereira, filho de um dos fundadores do Jamaica, que já conta com 40 anos, e à frente do espaço, diz que a primeira viragem no ambiente, na segunda metade da década de 1970, deu-se pela mão, ou pelo som, do Jamaica, do Tokyo e do Shangri-La (hoje transformado no Bar do Cais), então frequentados por quem «não procurava prostituição».
Mais tarde, com o Europa e, já no novo milénio, com o Musicbox, dá-se a «viragem definitiva» e atinge-se uma afluência «que já não se via há muito».

Entretanto, os bares continuam a passar as músicas ouvidas pelos marinheiros e espiões de há quarenta anos e nunca foram atrás da música da moda, mas beneficiaram da moda do revivalismo, que, afinal, «nunca deixa» de ser uma tendência. As casas continuam a ter néons.

«O ideal seria que modernidade convivesse ao lado da vertente mais característica e mais forte da zona: a sua história», remata Alexandre Cortez.

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EM BAIXO: Cocktail (arquivo)
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