A Quercus denunciou, nesta sexta-feira, a decisão do Governo de permitir a caça na Reserva Natural da Serra da Malcata considerando que não tem fundamentação científica e coloca em risco a recuperação de espécies como o lince ou o lobo.

"O Governo cede a pressões do loby da caça" e através de uma portaria de 8 de fevereiro revogou a proibição de caçar na Reserva Natural da Serra da Malcata, em vigor desde 1993, acusou a associação de defesa do ambiente, em comunicado hoje divulgado.

"A Quercus contesta esta opção do Governo, pois a mesma pode colocar em causa a recuperação de várias espécies que se encontram a recuperar na zona, como o corço, o veado ou o coelho, e ainda de espécies em perigo como o lince, o lobo ou o abutre-preto", destacou.

Realçando não estarem contra a caça, atividade que é possível exercer "na maioria do território português", os ambientalistas defendem que "esta decisão do Governo carece de qualquer fundamentação científica, não se conhecendo até à data nenhum estudo sobre as populações de espécies que possam vir a ser exploradas cinegeticamente".

Na origem da criação da Reserva Natural da Serra da Malcata esteve o objetivo principal de proteger o lince-ibérico, espécie que já nos anos 80 se encontrava em elevado risco de extinção e hoje possui um plano com vista à sua reintrodução em Portugal para ultrapassar o estatuto de ameaça de "criticamente em perigo", a nível mundial.

A opção do Governo de abrir a caça nesta área, "também representa um aumento do risco para o Plano Nacional de Reintrodução do Lince Ibérico, através do qual estão a ser investidos de milhões de euros", apontou a Quercus, salientando que está mesmo prevista a libertação de linces nesta área protegida.

A Quercus recorda que o lince é considerado uma espécie prioritária de interesse comunitário pela Diretiva Habitats, transposta para a lei portuguesa em 1999, relacionada com a designação de Sítios a integrar a Rede Natura 2000 para a sua conservação e proteção.

E, acrescentou, a Serra da Malcata, como muitas outras áreas protegidas, tem "graves lacunas de funcionamento devido a falta de recursos humanos e financeiros, o que se reflete nas ações de vigilância e fiscalização realizadas".

Aliás, os ambientalistas realçam que aquela reserva natural "já enfrenta graves problemas de caça furtiva, pelo que a opção de agora permitir a caça nesta área protegida só vai agravar os problemas de fiscalização".

"O abate a tiro é uma das principais causas de morte não natural do lince ibérico e do lobo-ibérico", especificou a Quercus, que prometeu tomar todas as medidas ao seu alcance para que a Reserva Natural da Serra da Malcata possa continuar a exercer o seu papel na conservação das espécies e habitats em perigo.