Responsáveis de organizações sociais consideraram que o caso da Raríssimas é prejudicial para as instituições de solidariedade, porque gera desconfiança, e defenderam o apuramento dos factos para que não se confunda a árvore com a floresta.

Uma reportagem emitida no sábado pela TVI denunciou o alegado uso, pela presidente da Raríssimas, de dinheiro da associação de ajuda a pessoas com doenças raras para fins pessoais.

Para a presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, Isabel Jonet, este caso “gera inevitavelmente um clima de desconfiança na atividade das instituições sociais”.

“Não é benéfico para o trabalho que desenvolvem. No entanto, a minha convicção é que casos como estes são totalmente excecionais”, disse Isabel Jonet à agência Lusa.

Mas, por outro lado, o facto de estes casos “virem a público “e serem denunciados é muito benéfico para as instituições” que diariamente “se esforçam para ter as contas arrumadas, por ter boa gestão, boa transparência e por darem contas dos donativos que recebem.

“É muito benéfico que estejam acautelados todos os mecanismos que permitam garantir que tudo corre bem”, disse Isabel Jonet, considerando ser “muito importante” haver uma “boa regulação deste setor com critérios de transparência e de ‘accountability’” (responsabilidade e ética nas contas).

Para a presidente do Banco Alimentar, tem que haver igualmente “uma cultura de rigor e exigência na prestação de contas”.

“A maior parte das instituições, como vive com o apoio do Estado, tem uma maior obrigação de prestar contas e de ser exigentes na prestação de contas”, defendeu.

Esta posição é partilhada pelo presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, que apela a uma intervenção dos tribunais no caso, considerando a situação “altamente prejudicial” para o setor.

“A ser verdade, é bom que os tribunais atuem com celeridade e, depois de atuarem, que se diga que tipo de responsabilidade foram pedidas às pessoas que usaram a missão que lhes foi confiada”, defendeu Eugénio Fonseca à Lusa

Por outro lado, “temos que distinguir entre a verdade dos factos e as suspeições porque o que tem minado muitas vezes a sociedade civil é a suspeição”, disse, condenando o uso de cartas anónimas que “levantam suspeitas sem terem o mínimo de certeza sobre os factos”.

“São armas criminosas”, vincou.

Sobre o impacto do caso nas instituições, disse que “é altamente gravíssimo para a sociedade” e principalmente para os pobres.

“Podem diminuir os donativos, o problema é que se perde a confiança nas instituições e o que está a acontecer, e eu lamento muito, é que se esteja a tomar a árvore pela floresta”, vincou.

Eugénio Fonseca salientou que em “todos os setores de atividade do mundo inteiro”, há “sempre ‘ovelhas ronhosas’, aqueles que não estão efetivamente no lugar que lhes foi confiado pelo bem-comum, mas muitas vezes por interesses próprios e isso acontece”.

Para o presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), Vítor Veloso, trata-se de um “caso de polícia”.

“É um caso muito triste, dramático, com uma envolvência mediática muito grande, mas espero que a população consiga fazer a destrinça entre as ‘associações boas e as associações más’ e sobretudo aquelas que dedicam o seu tempo, o seu trabalho” sem qualquer retorno financeiro, disse Vítor Veloso.

Sublinhou ainda que “estas situações que aparecem em público e que foram demonstradas cabalmente não são boas para as IPSS e chocam os portugueses.