Iolanda tem 21 anos e quer ser arquiteta para poder adaptar as casas à comunidade surda. A jovem dá o exemplo das campainhas que existem nas habitações que, no caso dos surdos, poderiam ser substituídas por luzes.  É um objetivo para o futuro e diz que vai lutar por isso. A sua primeira língua é a Língua Gestual Portuguesa (LGP), mas a sua determinação, essa é expressa numa língua universal.



Tal como outros alunos do Centro de Educação e Desenvolvimento Jacob Rodrigues Pereira (CED), Iolanda é surda. Nos corredores desta escola, em Lisboa, os alunos, surdos e ouvintes, misturam-se em conversas e brincadeiras. Todos se entendem e se fazem entender. Os problemas são os mesmos que os de todos jovens: as notas, as miúdas, os namorados, as amigas, o futebol.

Aqui, a surdez existe, mas não é uma marca de identidade. Uma ideia que é reforçada pela professora de História Mónica Silveira que admite, no entanto, que o mesmo não se verifique noutras escolas do país.  
 

«Aqui estamos todos muito sensibilizados. Mas acredito que ainda há muitos surdos em muitas escolas do país que são olhados como incapazes. Estamos um bocadinho distanciados dessa realidade. Muitos continuam a achar que eles só podem fazer trabalhos práticos, ou de pedreiro ou de canalizador, por exemplo. Não!» explica Mónica Silveira, em declarações à TVI24.


Apesar da evolução da sociedade ter ajudado a combater alguns estigmas, o caminho para a igualdade de oportunidades ainda não está completamente feito. Exemplo disso é o caso de um aluno surdo que chegou ao CED sem nunca ter tido aulas de Inglês, como conta o professor de Inglês Pedro Barros.

O aluno em causa estava ao abrigo de um programa curricular especial devido a uma alegada capacidade cognitiva inferior que estaria relacionada com a surdez. Pedro Barros afirma que, no CED, o aluno aprendeu Inglês, mesmo estando alguns passos atrás dos colegas - pelo simples facto de nunca ter tido aulas dessa disciplina.

Ter acesso às mesmas oportunidades do que os alunos ouvintes é, de resto, uma preocupação para muitos alunos surdos.    

«Se eu não tiver acesso à informação não vou estar em pé de igualdade com os ouvintes», refere Maria Arlinda, de 18 anos.


Maria Arlinda está no 10º ano, mas apenas há dois meses nesta escola. No estabelecimento de ensino anterior, Maria Arlinda diz que os surdos não se preocupavam em estar em circunstâncias de igualdade com os ouvintes.





Por casa a mãe não fala LGP, mas isso não parece ser um problema. A adolescente diz que falam por mímica e que as duas até têm um código. Com o resto da família admite, porém, que é um pouco mais difícil.

«Sinto que os ouvintes têm uma ligação muito forte entre eles e eu não sinto essa ligação com eles. Sinto-me mais isolada. Tenho algumas dificuldades na comunicação com a sociedade e às vezes penso como vai ser o futuro», diz Maria Arlinda


Se Iolanda queria ser arquiteta,  Maria Arlinda, que está no 10ºano quer prosseguir os estudos académicos e ser psicóloga. Se tem estudado muito? «O suficiente», atira entre um sorriso.

A conjuntura atual, demarcada pela crise económica e social, tem dificultado a entrada dos jovens no mercado de trabalho. No caso dos jovens surdos, as dificuldades podem ser acrescidas. Mónica Silveira explica que há empresas que estão sensibilizadas para esta condição, mas outras, pelo contrário, fecham-se.





A professora refere as áreas das artes gráficas e da publicidade como casos de sucesso de integração dos alunos no mercado de trabalho.

Mas mercado de trabalho é coisa que não passa pela cabeça de Abu: «trabalhar não, não penso nisso», diz, com uma expressão descontraída. Para já, com 16 anos, gosta de pensar apenas no hóquei que tem como «hobby» de eleição e que faz com que tenha muitos amigos ouvintes.

Já Miguel, de 15 anos, prefere a natação e, em 2013, esteve em Sófia, na Bulgária, nos Jogos Surdolímpicos. Treina de segunda à sexta às 6:00 da manhã para depois poder ir às aulas e folga da piscina só mesmo ao domingo. Além da natação, os computadores também são uma das suas paixões e, por este motivo, até pondera seguir algo relacionado com a informática no futuro.



Filho único de pais surdos, em casa de Miguel impera a LGP. O resto da família é ouvinte e quando há dificuldades de comunicação diz que faz um «bocadinho de mímica».

Quando vão ao café ou a uma loja, quer Abu quer Miguel admitem que têm mais dificuldades em comunicar do que, por exemplo, na escola. Às vezes recorrem à escrita, mas para Abu ter de escrever «é uma chatice».

Talvez por isso, mesmo quando têm amigos surdos e ouvintes, a maioria dos jovens surdos acaba por ter, de forma natural, uma maior aproximação com os surdos. A razão parece ser simples: afinal, falam a mesma língua.
 
  «Gosto de falar sobre a minha vida com os meus amigos surdos e partilhar as nossas experiências e as expectativas para o futuro.», conta Maria Arlinda.

Hugo, de 14 anos , diz que quase todos os amigos são surdos porque «falam a língua gestual» e, por isso, falar com eles torna-se mais fácil.

O aluno está no 5º ano, tal como Marta, de 11 anos. Além da surdez, têm duas outras coisas em comum: gostam de praticamente todas as disciplinas da escola e são os únicos surdos na família.

Para Marta, a prima que sabe língua gestual serve muitas vezes, de intérprete quando está com outros familiares. Já no caso de Hugo, este diz que costuma ensinar a língua aos pais e que, quando é preciso, também utiliza mímica.



Através de mímica, de códigos, da oralidade e da escrita, as declarações dos jovens surdos com que a TVI24 falou deixam adivinhar que na maioria dos casos, há sempre uma alternativa para que consigam comunicar com os ouvintes que não sabem língua gestual.

No entanto, um episódio bizarro aconteceu a uma antiga aluna surda da escola, como nos conta a professora Mónica.
  «Ela estava à espera do autocarro e na paragem estava outra pessoa. Essa outra pessoa tentou assalta-la e começou a agarrá-la. Ia a passar um carro da polícia, mas quando a polícia chegou pensou que era a aluna que estava a assaltar a outra pessoa... A aluna queria explicar que estava a ser assaltada, mas não conseguiu e a outra pessoa acabou por fugir», afirma a professora.

Uma «história macaca» como refere Pedro Barros, destacando, no entanto, que poderá ter havido algum preconceito racial à mistura, uma vez que o assaltante era branco, ao contrário da aluna.


A LGP e o ensino





Hoje, apesar de haver turmas integradas com alunos ouvintes e surdos, o ensino é feito de forma individual nas disciplinas teóricas. «Dar aulas a um aluno surdo e a um aluno ouvinte é completamente diferente, a língua é diferente e, por isso, implicam estratégias diferentes», refere Mónica.

Mas nem sempre foi assim, como relata Marta Morgado, surda e professora no CED desde 1997, que na juventude frequentava duas escolas, uma com ouvintes e outra só com surdos.  
 

«Na escola de surdos não havia trabalho, os professores não trabalhavam e a língua gestual não era uma coisa como é agora. Foi aí que percebi que queria ser professora de surdos», revela.


Marta recorda um período em que nas escolas havia uma desvalorização da língua gestual, obrigando os alunos surdos a oralizar.
 

«Quando a LGP começou a ser ensinada primeiro, os alunos começaram a perceber melhor a língua portuguesa e as outras coisas», explica.

 

Foi precisamente no ano em que Marta começou o seu percurso no CED, em 1997, que a LGP, com um vocabulário e gramática próprios, passou a ser uma das línguas oficiais de Portugal, tendo ficado consagrado na Constituição da República Portuguesa o compromisso do Estado em «proteger e valorizar a Língua Gestual Portuguesa enquanto expressão cultural e instrumento de acesso à educação e da igualdade de oportunidades».