A equipa da Polícia Marítima, que esta sexta-feira terminou a missão de um ano na ilha grega de Lesbos, resgatou 3.674 migrantes e refugiados, 894 dos quais crianças e bebés, que faziam a travessia entre a Turquia e a Grécia pelo mar Egeu.

Integrados numa missão da agência europeia Frontex, denominada “Poseidon Sea 2016”, uma equipa da Polícia Marítima (PM) esteve desde 01 de outubro de 2015 na ilha grega de Lesbos com a principal missão de busca e salvamento e de ajuda humanitária dos migrantes e refugiados que diariamente cruzam as águas do mar Egeu para chegar à Europa.

Num ano, a equipa portuguesa realizou 94 missões de busca e salvamento e resgatou do mar Egeu 3.674 pessoas, 894 eram crianças e bebés e 793 mulheres, segundo um balanço feito à agência Lusa.

A equipa de resgate prestou também primeiros socorros a 21 migrantes e refugiados, tendo-lhes administrado oxigénio e, em quatro casos, aplicado manobras de suporte básico de vida.

A PM recuperou igualmente do mar cinco cadáveres, apoiou 228 embarcações e deteve cinco facilitadores.

O subchefe Pacheco Antunes, que foi um dos chefes da missão da PM na Grécia, explicou à agência Lusa que, uns dias depois de trabalho no terreno, os agentes conseguem perceber quem são os facilitadores, aqueles que trazem os migrantes para um país sem autorizações e pertencem a redes de tráfico de seres humanos.

Dos cinco facilitadores detidos pela PM, três foram detetados quando largaram os migrantes na costa e voltaram para a Turquia, e os outros dois no mesmo bote dos refugiados, adiantou Pacheco Antunes.

No total, a viatura de vigilância costeira da PM fez 2.180 horas de navegação, 12.300 milhas náuticas e controlou 1.863 alvos, tendo prestado apoio a mais de 10.000 migrantes e refugiados.

Sempre que necessário, os elementos da PM apoiaram os migrantes e refugiados com mantas térmicas, águas e bolachas.

O chefe da área de operações da PM, comandante Dias Martins, que esteve várias vezes na Grécia para apoiar a equipa portuguesa, destacou à Lusa que, num ano, “os agentes da PM tiveram a oportunidade de trazer à vida duas pessoas que estavam em paragem cardiorrespiratória”.

Durante este ano, com tanta gente que embarcou na embarcação portuguesa, não tivemos nenhum óbito”, disse.

O comandante Dias Martins sublinhou também que todos os elementos da equipa possuem cursos de suporte básico de vida avançados e, alguns deles, têm cursos de suporte básico de vida em combate, tendo sido treinados para ajudar “em todas as situações”.

A equipa da PM que hoje terminou o apoio à guarda-costeira grega foi composta por 11 agentes e dois técnicos de apoio e manutenção.

A operação da Agência Europeia da Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas dos Estados-membro da União Europeia (Frontex) tem ainda como objetivo cooperar no controlo e vigilância das fronteiras marítimas gregas e combater o crime transfronteiriço.

A Polícia Marítima conta realizar a partir de maio de 2017 uma nova missão na Grécia de busca e salvamento de migrantes e refugiados, estando a aguardar apenas uma resposta da agência Frontex.

 

Sofrimento de crianças e bebés marcam agentes 

As imagens das crianças e bebés dentro de embarcações lotadas e sem condições vão ficar marcadas para sempre na memória dos agentes da Polícia Marítima.

De todas as missões que já fiz esta foi a que mais me marcou por causa das crianças e dos bebés. É o que marca mais quem lá está, quem vive aquilo e sente todo aquele pânico. Não é fácil lidar com aquilo”, disse à agência Lusa o subchefe Pacheco Antunes, um dos chefes da missão da Polícia Marítima (PM) na Grécia.

Como exemplo, Pacheco Antunes referiu que os botes com capacidade para 10 pessoas viajam com 60 e as embarcações maiores chegam a ter 300.

Ao mínimo de descuido e se aquela massa de gente se inclinar para um lado ou para outro, causa ali um problema e os coletes são falsificados”, afirmou.

Quando questionado sobre o que mais marcou nesta missão, o agente da PM disse que foram as crianças e os bebés: “faz-nos vir logo à memória os filhos, quem tem filhos custa ver situações daquelas”.

Aqueles primeiros três meses da missão, e todo aquele frenesim de gente a chegar à ilha, que eram às centenas por dia. Houve alguns casos mais dramáticos até mortes de crianças e bebés. É nessas altura, que nos toca um bocadinho mais”, sustentou.

A primeira tarefa dos agentes da PM quando encontram uma embarcação é tentar acalmar os migrantes e refugiados, tendo em conta o “pânico e a aflição” que sentem, com alguns deles a quererem “jogar-se para dentro de água” e a “entrarem em alguma histeria”.

Eles vêm sempre ao desconhecido, por vezes dá a sensação que não sabem ainda se estão ou não na Europa. Estão em situações muitas vezes delicadas dentro de água, cabe-nos a nós dizer quem somos, o que estamos ali a fazer e que os vamos ajudar. Passado um tempo, quando já estão na nossa embarcação é que se sentem em segurança”, explicou.

Pacheco Antunes conta que os refugiados “não fazem ideia do perigo que correm”, nem do que vão encontrar na água, porque “muitos deles nunca viram o mar”.

Se alguém daquelas redes os encaminham para as embarcações, a troco de muito dinheiro, embarcam naqueles botes conforme os obrigam e vão à sorte”, disse.

O subchefe, que já tinha estado destacado em na ilha grega de Lesbos em 2014, refere que a missão que agora terminou foi “completamente diferente” devido ao elevado número de migrantes e refugiados que atravessam o mar Egeu.

Segundo o mesmo responsável, todos os dias chegavam várias embarcações à costa de Lesbos nos primeiros três meses da missão, tendo depois diminuído o fluxo, mas nas últimas semanas a quantidade de barcos que tenta chegar à Europa voltou a aumentar, devido às condições atmosféricas.