A associação de lesados do papel comercial do Grupo Espírito Santo (GES) manifestou-se este sábado “desiludida” com o Governo e admitiu que, se o problema não se resolver, pode vir “a animar” comícios durante a campanha eleitoral para as legislativas.

“A partir deste momento vamos começar a atuar sobre o Governo. Nós não admitimos a passividade […] por parte de um Governo que não defende os seus cidadãos”, afirmou à agência Lusa Ricardo Ângelo, presidente da Associação dos Indignados e Enganados do Papel Comercial (AIEPC), do GES.


O representante dos clientes do GES, que reclamam ser reembolsados dos investimentos em papel comercial aos balcões do Banco Espírito Santo (BES), falava após uma assembleia-geral da associação, com algumas centenas de pessoas, no Hotel Tivoli Sintra, no centro histórico da vila.

“Estamos dispostos a tudo, inclusive a animar a campanha eleitoral das pessoas que têm feito pouco pela nossa causa”, acrescentou Ricardo Ângelo, considerando ser “exigível” do Governo uma atitude para ajudar a resolver a situação.


Os lesados do papel comercial do GES, perante as conclusões da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), da comissão parlamentar de inquérito à gestão do BES/GES e da auditoria forense sentem-se “desiludidos com a atuação governamental”, reconheceu.

“A partir de hoje não consideramos como aliado o Governo e podemos começar a atacá-lo. Quando começar a campanha, tanto invadimos bancos como podemos invadir comícios”, avisou Ricardo Ângelo.


Sobre uma eventual recondução do governador de Banco de Portugal, Carlos Costa, o presidente da AIEPC notou que tal só poderá ser visto como “um prémio se for considerado o bom trabalho que ele fez à banca, porque para os cidadãos fez um péssimo trabalho”.

“Se ele acredita em Deus é uma oportunidade para se redimir do mal que fez às pessoas, se não acredita em Deus é uma oportunidade que a ministra das Finanças lhe dá para ele fazer o bem”, ironizou.


A AIEPC promoveu durante a manhã de hoje uma manifestação, de mais de uma centena de pessoas, junto a uma das entradas do hotel onde terminou o segundo fórum do Banco Central Europeu (BCE).

O dirigente da associação entregou uma carta a uma assessora do presidente do BCE, porque acredita “que Mario Draghi está muito mal informado” e, por isso, pediu uma audiência para “esclarecer determinados pontos que o Banco de Portugal não lhe transmitiu”.

A associação cancelou um novo cordão humano que tinha agendado para as 20:00, junto à entrada da unidade hoteleira, na Estrada da Lagoa Azul, à beira da serra de Sintra, depois de ter concluído os protestos da manhã com a formação de uma corrente em frente ao principal acesso ao empreendimento turístico.

“Abram os portões das prisões, metam lá os burlões”, lia-se em cartazes empunhados pelos manifestantes, que protestavam ao som de buzinas, bombos e apitos.


Alguns ostentavam máscaras de Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, de Stock da Cunha, presidente do Novo Banco, e de Mario Draghi, presidente do BCE.

A deputada Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, associou-se à concentração e disse não ter dúvidas de que, no caso do papel comercial, houve pessoas que “foram enganadas” e merecem que as entidades reguladoras “se entendam”.

O segundo fórum mundial do BCE juntou na Penha Longa, entre quinta-feira e hoje, algumas das mais influentes personalidades do mundo da política monetária para debater o desemprego e a baixa inflação na Europa.