Uma arguida, pronunciada num processo de furtos, viciação e recetação de viaturas que hoje começou a ser julgado no Tribunal Judicial de Leiria, confirmou o envolvimento de um inspetor da Polícia Judiciária (PJ).

Ao coletivo de juízes, a acusada, detida preventivamente e que foi ouvida na ausência dos restantes arguidos que compareceram à sessão, começou por dizer que “trabalhava” no furto de viaturas “em separado” para dois arguidos que tinham “envolvimento” com o inspetor da Judiciária que “passava informação” àqueles.

A mulher, de 35 anos, referiu que numa ocasião viu a entrega de cerca de 1.500 euros ao inspetor da PJ, num restaurante, admitindo que a entrega tenha ocorrido por ocasião do aniversário do polícia.

“Eu vi-o [um acusado] a entregar cerca de 1.500 euros”, declarou a arguida, adiantando que numa situação lhe foi comunicado por quem entregou a verba que “desta vez” não lhe podia dar tanto dinheiro a ela para pagar o furto de viaturas “porque tinha de se pagar ao senhor” inspetor.

A acusada afirmou que recebia 250 euros pelo furto de cada carro, que ocorriam quando estavam estacionados na via pública, e garantiu que cometia os furtos com outros dois suspeitos, e, depois, levava os veículos para um armazém, referindo que também colaborava na sua desmontagem.

Está acusada, em coautoria, de dez crimes de furto simples, 18 crimes de furtos qualificado e um crime de falsificação de documento agravado, estando-lhe ainda imputada em autoria material um crime de associação criminosa e um crime de tráfico de estupefacientes.

Na sessão, o coletivo de juízes determinou a separação do processo relativamente a dois arguidos, um acusado de furto simples, outro que respondia por crime de falsificação de documento agravado, pelo que em julgamento estão agora 16 acusados, 13 dos quais marcaram presença na sessão.

Todos, incluindo o inspetor do Departamento de Investigação Criminal de Leiria da PJ, acusado dos crimes de corrupção passiva e associação criminosa, admitiram ao coletivo de juízes que pretendiam depor, embora a maioria o tenha remetido para mais tarde.

Segundo o despacho de acusação, confirmado por um juiz de instrução, o inspetor, que estava “na secção que investiga furto, tráfico e viciação de viaturas”, receberia pagamentos mensais de 1.500 euros de dois arguidos (que detivera no passado) para não investigar a atividade daqueles e avisá-los de eventuais investigações da PJ. O valor duplicava no Natal, Páscoa e no aniversário do inspetor.

Em julgamento estão ainda os crimes de incêndio a meio de transporte, corrupção ativa, detenção de arma proibida e recetação.

No despacho lê-se que seis acusados combinaram proceder à subtração aos seus proprietários de viaturas que fossem encontrando pelo país, para depois proceder à sua venda a terceiros, inteiras ou por peças, após o desmantelamento.

Dois destes elementos eram supostamente responsáveis por dar instruções aos restantes, sobre, por exemplo, as características dos veículos a furtar, quando deveria ocorrer, por quem e o modo de o fazer.

As instruções incluíam a espera “após as subtrações, de modo a apurar se as viaturas possuíam localizador”, o seu local de armazenamento e eventual desmantelamento, ou a colocação de diferente matrícula.

Decorrido o “compasso de espera”, os arguidos que furtavam os veículos conduziam-nos para um armazém e uma residência, ambos em Mira de Aire, Porto de Mós, e para uma sucateira em São Mamede, Batalha.

O julgamento prossegue às 14:50.