O cancelamento da leiloeira Christie¿s da venda de 85 quadros de Juan Miró detidos pelo Estado português foi esta quarta-feira noticiado em muitos dos principais jornais do mundo que destacam a alegada ilegalidade da venda.

Em Espanha, país de origem do pintor Juan Miró, todos os jornais publicam a história, com o «El Mundo» a destacar a suspensão da venda dos quadros e o catalão «El Periódico» a referir as «incertezas legais» sobre a propriedade do lote de quadros.

No Reino Unido, onde era suposto decorrer o leilão na terça-feira, o «The Guardian» avança o título «Christie's cancela venda de 85 pinturas de Joan Miró após tumulto», referindo-se à petição, que junta mais de nove mil assinaturas, contra a venda dos quadros e as providências cautelares interpostas por deputados socialistas e pelo Ministério Público português para impedir o negócio.

A disputa legal sobre a propriedade dos quadros de Miró foi o que mais chamou a atenção da principal televisão britânica, a BBC, enquanto o «The Telegraph» diz que um «leilão de arte de Portugal foi travado por ordem judicial».

Também na Irlanda, o «The Journal» faz título com o caso, mas, neste caso, a palavra-chave é a «austeridade» em Portugal e o ângulo da notícia lembra que «Portugal queria recuperar "buraco" de banco vendendo arte».

A Alemanha também deu atenção à história, com o «Sutsche Welle» a titular «Leiloeira de Londres cancela venda de quadros de Miró», afirmando que a decisão foi tomada «de forma abrupta» depois de um «tribunal português ter ordenado a suspensão», na sequência «de um pedido apresentado pela Oposição».

Por seu lado, o «Der Spiegel» noticia o cancelamento do leilão pela Christie's, referindo a necessidade de Portugal de «receber os 36 milhões de euros» que constituíam a base de licitação dos 85 quadros.

O episódio dos quadros de Miró em leilão e da suspensão da venda atravessou o oceano e foi puxado pelos norte-americanos «The New York Times» e «The Wall Street Journal». Os diários destacam a «revolta» mostrada pela população, enquanto, no Canadá, a CBC refere o cancelamento do leilão que «pretendia cobrir o "buraco" de um banco».

Um pouco mais a sul, na Colômbia, o «El Nuevo Siglo» dá conta de «um litígio em Portugal» por causa da «incerteza sobre a propriedade de 85 obras do pintor Juan Miró», que estão em poder de Portugal.

Do outro lado do mundo, na China, a edição espanhola do «China Post» titula «Justiça portuguesa tenta impedir venda de 85 quadros de Miró», enquanto na Tailândia, o Bangkok Post explica que as obras do pintor catalão passaram a ser propriedade do Estado português quando o BPN foi nacionalizado, em 2008, e que a sua venda foi «ferozmente impedida» por amantes de arte e pela Oposição em Portugal.

A leiloeira Christie's cancelou na terça-feira a venda de 85 quadros de Joan Miró provenientes da coleção do ex-BPN, afirmando, em comunicado, que a decisão resultou «da disputa nos tribunais portugueses», na qual «não é parte interessada».

«Apesar de a providência cautelar não ter sido aprovada, as incertezas jurídicas criadas por esta disputa em curso significam que não podemos oferecer as obras para venda de forma segura», disseram os responsáveis da Christie¿s no comunicado, lembrando ter «responsabilidade perante os compradores» de garantir «que a propriedade pode ser transferida sem problemas».

Em causa está um conjunto de obras do pintor catalão que ficou nas mãos do Estado após a nacionalização do Banco Português de Negócios (BPN), e que o Governo pretendia vender num leilão organizado pela Christie's, em Londres, na terça-feira e hoje.