O septuagenário acusado de ter alvejado três vizinhos em Braga por causa de desavenças relacionadas com infiltrações de água remeteu-se hoje ao silêncio, no início do julgamento, no Tribunal Judicial daquela comarca.

No entanto, o tribunal ouviu as declarações prestadas pelo arguido na fase de instrução do processo, em que afirmou não saber como e por quem foram efetuados os disparos, sublinhando que na altura foi atacado por três vizinhos e por um cão e se gerou uma «enorme confusão».

«Atiraram-se a mim os quatro. No meio da luta toda, não percebi mais nada. Acabaram por sair tiros, não consigo explicação», referiu.

Disse ainda que apenas pegou na arma para se precaver contra um eventual ataque do cão, admitindo que, na pior das hipóteses, poderia eventualmente optar por disparar «um tiro para o ar».

Um dos vizinhos atingidos pelos disparos disse que não ter dúvidas de que o arguido, um engenheiro agrónomo com 76 anos, atirou para matar.

Destacou a «frieza» da atuação do arguido e a forma como disparou «indiscriminadamente» sobre três pessoas.

O arguido responde por três crimes de homicídio qualificado, na forma tentada, e o caso está a ser julgado por um tribunal de júri, constituído por três juízes e quatro jurados.

Os factos remontam a 3 de março de 2014, perto das 23:00, em Nogueira, Braga, e culminaram desavenças e discussões antigas do arguido com os vizinhos, por causa de infiltrações de água no seu apartamento.

O arguido queixava-se que as infiltrações tinham origem no piso de cima e, no dia dos factos, terá decidido cortar a água no prédio, fechando o passador.

Os vizinhos foram abri-lo, ele voltou a fechá-lo e gerou-se nova discussão.

Segundo a acusação, o arguido foi a casa buscar uma pistola, com a qual efetuaria cinco disparos em direção a três vizinhos.

De acordo com o arguido, os problemas de infiltração de água no seu apartamento arrastavam-se desde 2010, ano em que registou uma "inundação tremenda".

«A partir daí, nunca mais tive a casa seca», referiu, dando conta das suas várias tentativas junto dos vizinhos para resolver o problema.

Um dos vizinhos hoje ouvido contrapôs que as infiltrações não tinham origem no seu apartamento mas sim em «problemas estruturais» do prédio, um edifício com mais de 40 anos e que «nunca teve obras».

Disse ainda que, no dia dos factos, o arguido criou «um cenário de terror» e que só não o matou «por milagre».

O arguido está em prisão domiciliária, com vigilância eletrónica.

Segundo o seu advogado, só falará no final do julgamento.