O homem acusado do triplo homicídio de Queluz, em 2012, disse hoje em tribunal que apenas queria «pregar um susto» às vítimas devido a problemas de negócios e que o incêndio no elevador não foi premeditado, mas uma fatalidade.

O crime, ocorrido a 13 de agosto do ano passado, provocou a morte de duas mulheres, mãe e filha [cunhada e sobrinha do arguido], de 70 e 34 anos, e de um segurança, de 34 anos, contratado por uma das mulheres que, alegadamente, já tinha sido ameaçada de morte pelo suspeito.

Na primeira sessão do julgamento, em Sintra, Francisco Ribeiro, de 58 anos, explicou que era sua intenção «despejar as duas sacas com álcool [cerca de três litros no total] à entrada do elevador» e «fazer uma barreira de fogo» para que as familiares «refletissem e resolvessem» o alegado conflito que mantinham com ele, há vários anos, por causa de uma sociedade com duas clínicas.

O arguido disse que usou um lenço e um capuz, que levou duas sacas com álcool [comprado nas duas semanas antes do crime e guardado numa garrafa de litro e meio] e dois isqueiros de cozinha.

O homem acrescentou que imobilizou o elevador com uma chave sextavada, o qual parou a um nível inferior [pelo meio do tronco do segurança] em relação à sua posição. Quando a porta se abriu, segundo o arguido, o segurança, ao tentar agarrá-lo pelas pernas, puxou as sacas com o álcool para o interior do elevador, «regando as vítimas» com o líquido.

De seguida, mas sem conseguir explicar ao coletivo de juízes como aconteceu, o arguido diz que "carregou sem querer no isqueiro" que provocou uma explosão de chamas.

Lurdes Almeida, Rute Almeida e Ailton Gonçalves morreram carbonizados dentro do elevador.

«Foi tudo muito rápido, uma fração de segundos. Só vi os corpos a caírem e ninguém gritou. Ficou tudo descontrolado e não estava à espera que isto acontecesse. Estou arrependido e sinto-me responsável pelo que aconteceu», afirmou Francisco Ribeiro, que se emocionou duas vezes ao contar a sua versão dos factos.

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O arguido, que se entregou às autoridades com algumas queimaduras, explicou que na origem da sua atitude estiveram divergências e uma relação conflituosa que mantinha com a cunhada, desde 1999, ano em que deixou de ser gerente da sociedade [da qual também era fundador], e em que ambos eram sócios.

O homem acrescentou que pelo meio deixou de receber ordenados, que viriam a ser pagos mais tarde, e que a situação culminou com uma decisão judicial, de 2010, que o impedia de frequentar as instalações da empresa.

«Não sei se este inferno [crime] que vivi é pior do que aquilo que passei nestes 13 anos. Quando tentava sair da sociedade, arranjavam sempre mais algum problema. O único objetivo dela [cunhada] era o de destruir a minha vida», afirmou Francisco Ribeiro.

A viúva do segurança, também ouvida hoje em julgamento, afirmou que a senhora para quem o seu marido trabalhava «tinha sofrido ameaças» do arguido.

À saída do tribunal, o advogado do suspeito classificou o ocorrido «como um infortúnio e não uma premeditação». Questionado sobre se uma pena inferior a 25 anos seria uma pena justa, Pedro Madureira não quis «fazer comentários».

O arguido está acusado de três crimes de homicídio qualificado e de um crime de incêndio, e encontra-se em prisão preventiva desde 30 de agosto de 2012.