As falhas de segurança no aeroporto de Lisboa dominaram esta quinta-feira a inquirição de testemunhas do julgamento do cidadão angolano Gima Calunga, detido em julho de 2014, no aeroporto de Lisboa, por adesão e apoio a organizações terroristas.

Durante a audiência, na Instância Central Criminal de Lisboa, foram ouvidos quatro funcionários da segurança do aeroporto da capital portuguesa, um dos quais, com um cargo de chefia no setor, que chegou a admitir a existência de “falhas grandes” na segurança do aeroporto, depois de muito questionado pelo advogado das Linhas Aéreas de Angola (TAAG), que se constituiu como assistente no processo.

A existência de falhas ao nível da segurança foi, aliás, uma das pedras de toque das perguntas dos advogados de defesa do arguido, Bruno Gomes, e da TAAG, Paulo Blanco Amaral, que pretendiam ver esclarecida a possibilidade de uma pessoa entrar no aeroporto através da vedação paralela à segunda circular, e de se manter no interior das instalações do aeroporto junto ao radar velho, durante um dia, sem ter sido detetado, como aconteceu com o arguido.

Gima Calunga, cidadão de origem angolana e nacionalidade holandesa, saltou a vedação que delimita a zona da área reservada do aeroporto de Lisboa, a 02 de julho do ano passado, e, no dia seguinte, 03 de julho, cerca das 22:15, saiu do edifício onde se tinha escondido, dirigindo-se à zona de embarque, onde se encontrava uma aeronave, com centenas de passageiros, em manobras para preparar a descolagem do voo, com destino a Angola.

O arguido tinha na sua posse uma faca, com 21 centímetros de gume, como foi referido na audiência, com a qual pretendia sabotar o avião, segundo a acusação.

O Ministério Público acusou Gima Calunda de adesão e apoio a organizações terroristas e terrorismo internacional, atentado à segurança de transporte por ar, com vista ao terrorismo, e posse de arma branca.

“Desnorteado, completamente desnorteado”, foi como o funcionário da segurança do aeroporto de Lisboa disse ter encontrado o arguido Gima Calunga, na madrugada de 04 de julho de 2014, quando lhe retirou a faca que este segurava atrás das costas, embrulhada num papel, disse hoje a testemunha em tribunal.

“Nunca tinha visto uma faca de cozinha tão grande”, disse hoje este funcionário, sublinhando, no entanto, ter sido essa a “única altura” em que sentiu medo do arguido.


“Já antes de lhe ter retirado a faca, tinha dito que não pretendia fazer mal a ninguém”, disse a propósito do comportamento de Gima Calunga, à data dos factos, sublinhando ter “a certeza” de que o arguido “não pretendia fazer mal a ninguém”.

Além de quatro funcionários da segurança do aeroporto de Lisboa, o Tribunal também ouviu hoje o chefe do departamento de controlo de navegabilidade do Instituto Nacional de Aviação Civil.

Arrolado como testemunhada, mas ouvido como perito pelo tribunal, o técnico afirmou, perante o coletivo de juízes, que mesmo que o arguido tivesse cortado alguma cablagem do avião no local onde foi detetado – junto ao trem de aterragem – não punha em risco a aeronave.

“O que existe junto ao trem de aterragem não são cabos importantes (…) e, apesar de ser difícil cortá-los com uma faca, mesmo que o fosse, não causaria danos importantes”, referiu, de acordo com a Lusa.