O presumível homicida de S. João da Pesqueira, Manuel Baltazar, admitiu esta terça-feira, em tribunal, ter disparado intencionalmente contra uma tia da ex-mulher e a ex-sogra, a 17 de abril de 2014.

De acordo com a acusação, Manuel Baltazar, de 61 anos, disparou uma arma tipo caçadeira contra a filha e a ex-mulher (Sónia Baltazar e Maria Angelina Baltazar, que ficaram feridas) e duas familiares desta (a tia e a mãe,
Elisa Barros e Maria Lina Silva, que morreram), em Valongo dos Azeites.

Na primeira sessão do julgamento, que decorre no Tribunal de Viseu, Manuel Baltazar (conhecido por Palito), que andou fugido 34 dias, admitiu ter feito três disparos, os dois primeiros destinados a Elisa Barros e o terceiro a Maria Lina Silva.

No entanto, negou que tivesse pretendido atingir a ex-mulher, que não soube explicar como ficou ferida, e a filha, contando que esta se atirou «para a frente da arma» provavelmente ao tentar proteger a avó.

Num depoimento confuso, que levou a constantes interrupções da juíza presidente do coletivo para esclarecimentos, Manuel Baltazar argumentou ter sido motivado por uma provocação de Elisa Barros.

Contou que, a 17 de abril, se tinha deslocado ao Tribunal de S. João da Pesqueira por ter sido notificado devido ao facto de a pulseira eletrónica que usava estar constantemente a avisar que se encontrava próximo da ex-mulher.

No final de 2013, Palito tinha sido condenado por um crime de violência doméstica e estava proibido de contactar Maria Angelina Baltazar, de quem se devia manter afastado.

Manuel Baltazar contou que, no dia 17, se deslocou ao tribunal no mesmo carro do seu advogado, tendo comprovado que bastava passar na estrada principal (que usava quando ia trabalhar para uma vinha) para o aparelho começar a apitar.

Acrescentou que, no tribunal, ficou a saber que tinha os bens penhorados. Foi então almoçar e decidiu passar no terreno para ir buscar uma caçadeira que lá tinha, apenas com o objetivo de a guardar em casa.

Depois decidiu ir para casa por um caminho diferente do habitual para pagar a um homem que lhe tinha andado a deitar herbicida e foi então que se cruzou no caminho com Elisa Barros, que lhe disse: «O que é que este aqui anda a ladrar».

«Aí, perdi a cabeça, fiquei descontrolado», admitiu, tendo-lhe dado um tiro quando ela entrou para o pátio da casa onde a ex-mulher, a ex-sogra e a filha estavam a fazer bolos para a Páscoa, apesar de dizer não saber que elas lá se encontravam.

O arguido confessou que pretendia matá-la, mas que está arrependido. Disse não ter visto a ex-mulher e nem saber de onde apareceu a filha, que lhe agarrou o cano da caçadeira. Foi depois de esta largar a arma que a atingiu, e à ex-sogra, pelas costas.

«Assim que vi que apanhei a filha, a minha cabeça ficou perdida», afirmou, acrescentando que depois foi embora, arrumou o carro, cortou a pulseira eletrónica e fugiu.

A juíza presidente avisou que o que estava a contar contraria a contestação que fez, onde está escrito que pretendia atingir também a ex-mulher, não para a matar, mas para «ofender o corpo».

A acusação refere que Palito entrou num anexo da habitação e, ao ver Elisa Barros, disparou na sua direção, atingindo-a na região torácica e abdominal. Sónia Baltazar, que estava perto, também foi atingida numa mão.

Ao avistar Maria Angelina Baltazar vinda da cozinha, disparou na sua direção, atingindo-a na perna esquerda, o que levou Sónia Baltazar a dirigir-se ao pai e a agarrar o cano da arma, para evitar que continuasse, acrescenta.

Segundo a acusação, Sónia Baltazar caiu ao chão e, como não largou a arma, o pai arrastou-a cerca de quatro metros. Nessa altura, surgiu Maria Lina Silva, de 85 anos, que ainda desferiu algumas pancadas com uma bengala no arguido, tendo depois Sónia largado a arma e fugido com a avó para o interior do anexo.

Quando as duas já estavam de costas, a uma distância de cerca de cinco metros, Manuel Baltazar empunhou novamente a arma e disparou, atingindo a filha e a ex-sogra, refere.

Além dos quatro crimes de homicídio qualificado (dois dos quais na forma tentada), o arguido está acusado de um crime de detenção de arma proibida e outro de violação de proibições ou interdições.