O homem acusado de ter atirado ácido sulfúrico à ex-companheira, em fevereiro, em Regueira de Pontes, Leiria, remeteu-se esta segunda-feira ao silêncio no julgamento, no Tribunal Judicial de Leiria, remetendo eventual depoimento para outra sessão.

Ao arguido, de 60 anos, detido preventivamente, o Ministério Público (MP) imputa um crime de homicídio qualificado, na forma tentada, e outro de violência doméstica.

No despacho de acusação, lê-se que o arguido, desde o início do casamento, em 1974, injuriava a vítima e, “durante a gravidez do primeiro filho do casal”, desferiu-lhe socos e pontapés, situação que “repetiu noutras ocasiões”, tendo aquela chegado a fugir de casa.

Em 2013, a mulher anunciou ao arguido a intenção de se separar, pelo que aquele passou a dizer-lhe: “Se saíres de casa, levas um tiro, agarro em ácido e atiro-to para cima”, relata o MP.

Segundo o documento, o suspeito aproveitava qualquer notícia veiculada pela comunicação social acerca de homicídios perpetrados por maridos às suas mulheres para lhe dizer: “Vês o que aconteceu a esta por ter deixado o marido?”.

A 02 de fevereiro de 2014, cerca das 13:00, quando ambos almoçavam, viram na televisão uma notícia que dava conta de um agente da PSP que tinha matado a companheira, tendo o suspeito dito à mulher: “Se um polícia que é polícia pode matar a amante, eu também posso matar a minha mulher”.

Nesse dia, a vítima saiu de casa e na GNR entregou uma arma e 14 munições que o arguido guardava no interior do quarto de ambos.

No dia 07 de fevereiro, pelas 19:30, o arguido deslocou-se a casa da vítima, dizendo que queria falar com ela, mas esta rejeitou abrir a porta e telefonou à filha.

A mulher, contudo, acabou por abrir uma janela do rés-do-chão, pedindo ao arguido para sair dali, mas este foi à garagem e regressou com uma garrafa contendo ácido sulfúrico que arremessou para cima da vítima, atingindo-a na cara, pescoço e barriga, descreve o MP.

Hoje, no Tribunal Judicial de Leiria, a vítima, de 58 anos, afirmou que foi “sempre maltratada” e que o ex-marido a injuriava, insultava e provocava-a “ao máximo”.

“Na primeira gravidez, bateu-me, deu vários pontapés”, declarou, adiantando ter fugido por duas vezes de casa e que pediu o divórcio “porque há não aguentava viver com ele”, sendo que “há uns cinco anos deixaram de viver na mesma casa”.

A mulher esclareceu que no dia do crime o arguido foi a casa onde morava, mas recusou-se a abrir a porta, embora aquele forçasse a fechadura, tendo aberto uma janela.

“Atirou aquilo [líquido] para cima de mim, por duas vezes”, referiu, afirmando que o que lhe pareceu detergente a atingiu “na cara e no pescoço para baixo”.

Adiantando ter sentido dor, a vítima esclareceu que ele “saltou pela janela” e, depois de entrar em casa, deu-lhe um empurrão para o chuveiro, dizendo que “a tinha de matar”.

“O que fez foi para me desfigurar, para ninguém olhar para mim, para me matar”, considerou a mulher, que teve dificuldade em precisar datas na audiência, garantindo ao tribunal coletivo que o arguido já a andava a “ameaçar há muito tempo com uma arma”, que entregou às autoridades numa ocasião em que fez queixa.

O julgamento prossegue no dia 22, às 14:30.