A defesa de Pedro Dias, suspeito de ter cometido três homicídios em Aguiar da Beira, pediu a instauração de um inquérito criminal a um militar da GNR, alegando que este deu “um depoimento claramente falso” em tribunal.

No requerimento, que foi aceite, o advogado Rui Silva Leal disse que Pedro Dias pretende “que se extraia certidão da gravação da totalidade deste depoimento e se entregue a mesma ao Ministério Público, a fim de que seja instaurado o inquérito criminal”.

O militar em causa é Filipe Sequeira, do posto da GNR de Fornos de Algodres, que na noite de 11 de outubro de 2016 deu a informação à patrulha de Aguiar da Beira, constituída por Carlos Caetano e António Ferreira, de que o homem que eles tinham encontrado a descansar numa carrinha, junto a um hotel em construção nas Caldas da Cavaca, estaria armado.

Esta quarta-feira à tarde, Filipe Sequeira disse em tribunal que estava em patrulha com Carlos Cruz, quando este recebeu um telefonema de Carlos Caetano a pedir informações sobre Pedro Dias. Antes, tinha ouvido, via radio, um pedido de António Ferreira sobre a matrícula da carrinha encontrada junto ao hotel, que associou a uma outra de uma situação ocorrida dois anos antes, porque “só mudavam os números da matrícula”.

Filipe Sequeira contou que, numa madrugada de 2014, foi alertado para uma carrinha parada junto a um aviário em construção. Ao fazer a abordagem, ligou os rotativos da viatura e o veículo pôs-se em fuga, tendo depois constatado que aquela matrícula era falsa, porque pertencia a um ciclomotor.

O militar contou que nesse dia pensou tratar-se de um caçador furtivo e, por isso, quando ouviu o telefonema feito por Carlos Caetano a Carlos Cruz, dadas as características da viatura serem idênticas, avisou que o homem podia estar armado.

Filipe Sequeira disse que fez a associação das duas situações “pelas características da carrinha” e não pelo arguido, que não conhecia.

No entanto, depois admitiu que já “tinha ouvido dizer que o namorado da Cristina (uma empresária de Fornos de Algodres) seria caçador”, mas não sabia tratar-se de Pedro Dias.

Em declarações aos jornalistas no final da sessão da tarde, Rui Silva Leal disse não ter dúvidas de que Filipe Sequeira “mentiu descaradamente”, o que, “vindo de um agente policial, é gravíssimo”.

“A mentira é total em todo o depoimento, não tem ponta por onde se lhe pegue”, afirmou, considerando que os factos que se encontram a ser julgados começaram no momento desse telefonema.

O advogado Pedro Proença, que representa a família de Carlos Caetano e António Ferreira, considerou que o que interessa do depoimento de Filipe Sequeira é que confirma o que disseram os guardas ouvidos antes.

“Veio credibilizar o depoimento de todos os militares da GNR que estiveram anteriormente, que afirmaram ter recebido e transmitido a informação de que este arguido era potencialmente perigoso e poderia estar armado”, frisou, alertando que não se deve cair “na tentação de poluir os restantes depoimentos”.

No seu entender, o depoimento do militar “em nada prejudica o que de bom se fez hoje em termos de prova”, porque os militares ouvidos, que estiveram envolvidos nos primeiros contactos com os cenários de crime, frisaram que “houve uma preocupação em preservar a prova e evitar que fosse contaminada”.

Outro dos militares que depôs durante a tarde foi Nuno Gonçalves, na altura comandante do posto da GNR de Vila Nova de Paiva, que se apercebeu de uma poça de sangue na berma da estrada e de um rasto que o levou aos locais onde estavam Liliane (que ainda estava viva e de quem ouviu gemidos) e Luís Pinto, colocados a cerca de 20 metros. No local estava um invólucro.

A descoberta foi feita numa altura em que “já havia um grande aparato no local”, uma vez que anteriormente, a poucas dezenas de metros, tinha sido encontrado o carro-patrulha da GNR de Aguiar da Beira com o corpo de Carlos Caetano na bagageira.

Nuno Gonçalves disse ter sido o primeiro a chegar ao local, imediatamente seguido pelos colegas que estavam consigo, e que encontrou Liliane e Luís Pinto “parcialmente cobertos” com fetos e ramos de giesta cortados o que, na sua opinião, teria como intenção impedir que fossem avistados da estrada nacional.

Os militares ouvidos durante a tarde negaram que alguma vez lhes tivessem sido dadas informações para fazer uma “caça ao homem”. A única indicação dada foi de que, caso Pedro Dias fosse encontrado, não fosse abatido, contou o militar Luís Ribeiro.

Cláudio Carvalho, do posto de Moimenta da Beira, disse ter ajudado a tentar reanimar Carlos Caetano depois de os bombeiros o terem retirado da bagageira do carro, uma vez que tem o curso que permite fazer essas manobras.

O militar contou que, nessa altura, a carta de condução de Pedro Dias caiu do bolso esquerdo das calças de Carlos Caetano e que a entregou à comandante do Núcleo de Investigação Criminal de Moimenta da Beira.

Pedro Dias está a ser julgado no Tribunal da Guarda desde sexta-feira. Está acusado de três crimes de homicídio qualificado sob a forma consumada, três crimes de homicídio qualificado sob a forma tentada, três crimes de sequestro, crimes de roubo de automóveis, de armas da GNR e de quantias em dinheiro, bem como de detenção, uso e porte de armas proibidas.

O julgamento prossegue na quinta-feira.