O comandante de posto da GNR de S. Pedro do Sul garantiu hoje, em tribunal, que a abordagem feita a Pedro Dias para parar a carrinha onde este seguia ocorreu da forma habitual e não ameaçadora.

Ao ser ouvido hoje de manhã no tribunal da Guarda – onde Pedro Dias está a ser julgado por vários crimes, incluindo três homicídios – o comandante Horário Mateus contou que abordou a carrinha Toyota Hilux de caixa aberta numa confluência de estradas na zona de Coelheira, no concelho de S. Pedro do Sul.

Horácio Mateus referiu que, como é habitual quando mandam parar uma viatura, levantou o braço direito. Ao ombro, tinha uma arma, mas que estava virada para baixo.

Segundo o comandante, a carrinha seguia “em marcha lenta” e, feito o contacto visual com o condutor, ficou com ideia de que ele iria parar.

Na altura, não sabia que se tratava de Pedro Dias, porque a fotografia da carta de condução que tinha sido encontrada junto ao corpo do militar Carlos Caetano “não tinha nada a ver com a fisionomia” atual, mas disse que agora não tem “qualquer dúvida” de que era ele o condutor.

Na carrinha viajava só Pedro Dias, que “engrena uma mudança mais baixa, acelera violentamente e não para”, seguindo em direção a Póvoa das Leiras (na estrada que dá acesso a Arouca), tendo aí começado a perseguição do veículo.

Os militares não conseguiram, no entanto, alcançar a viatura. Pouco depois, encontraram-na num caminho florestal de Póvoa das Leiras e, nas proximidades, pendurado num arbusto, um cinturão e um coldre, contou.

Horácio Mateus disse ter também sido informado de que, a cerca de um quilómetro, junto a uma linha de água, foi encontrado um saco de plástico preto, uma arma e uma mala preta com víveres e documentos no interior.

O militar Toni Martins confirmou ter sido ele a encontrar o saco, a mala e a arma. Ambos garantiram que as provas que encontraram foram preservadas até à chegada da Polícia Judiciária (PJ).

Durante a pausa para almoço, o advogado Pedro Proença, que representa a família de Carlos Caetano e António Ferreira, considerou fundamentais estas duas testemunhas, porque “tiveram contacto direto com elementos de prova fundamentais no processo, foram bastante objetivas e salientaram o cuidado que a GNR teve em preservar as provas até à chegada da PJ”.

No seu entender, o depoimento do comandante do posto de S. Pedro do Sul “vem desmitificar o que foi a posição desde o início do arguido, de que andaria a fugir com receio de ser abatido pela GNR”.

“Este depoimento do comandante foi esclarecedor de que a intenção da GNR não era perseguir para abater, mas pura e simplesmente para fazer a detenção do suspeito e nada mais”, frisou.

Durante a manhã foram ouvidos militares que, após os crimes da madrugada de 11 de outubro de 2016, falaram através de telemóvel com Pedro Dias.

Jorge Marques, do posto de Fornos de Algodres, que costumava conviver com Pedro Dias por tratarem de quintas próximas, ligou-lhe para o telemóvel, mas ele não atendeu.

Segundo o militar, Pedro Dias devolveu a chamada. Depois disso, devido a supostos problemas com as ligações, Jorge Marques e Pedro Dias falaram através de vários telemóveis, inclusive o do Núcleo de Investigação Criminal (NIC).

Durante as várias chamadas, e sempre em tom calmo, Pedro Dias disse que ia a caminho de Valladolid (Espanha), para apanhar o avião e que as suas carrinhas estavam na quinta. Quando questionado pela carta de condução, fez “um compasso de espera”, disse que ia na autoestrada, mas ia parar para verificar se a tinha e já ligava, contou.

Jorge Marques referiu que Pedro Dias voltou depois a ligar e disse que realmente não tinha a carta, que teria ficado com os militares da patrulha da GNR que o fiscalizaram em Aguiar da Beira, depois de ter estado a jantar em casa da namorada, em Fornos de Algodres.

O militar referiu que, quando lhe estava a perguntar em que lugar tinha sido fiscalizado, chegou a responsável pelo NIC de Moimenta da Beira, Marimba Pina, que lhe pediu para passar o telemóvel.

Marimba Pina, também ouvida hoje de manhã, contou que pediu a Pedro Dias para ir ter com os militares, mas ele disse que não, porque “estava atrasado para um voo”. Sugeriu então que lhes dissesse onde estava que iriam ter com ele, mas recusou.

Segundo Marimba Pina, nunca foi referido o motivo do telefonema, apenas foi dito a Pedro Dias: “É um assunto do seu interesse”.

Durante a manhã de hoje, por várias vezes Pedro Dias –que esteve sempre a tirar notas - abanou a cabeça e trocou olhares com os seus advogados.

Na opinião do Pedro Proença, houve “alguns olhares que revelam insatisfação relativamente a algumas coisas que podem estar a acontecer” e também “uma preocupação por parte do arguido em tomar apontamentos de coisas que se vão passando durante o julgamento”.

“Neste momento, o arguido estará a selecionar, do âmbito de prova produzida, os factos que lhe permitirão construir uma história tardiamente, que, de alguma forma, permita justificar o seu comportamento”, considerou, acrescentando soar-lhe “demasiado a estratégia para poder ser uma atitude e uma justificação plausível para o tribunal”.

O julgamento prossegue durante a tarde, estando prevista a audição do inspetor da PJ que conduziu a investigação.