O antigo primeiro-ministro José Sócrates vai constituir-se assistente no processo-crime aberto pela Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre a divulgação dos vídeos dos seus interrogatórios no âmbito da Operação Marquês, anunciou hoje em conferência de imprensa.

Segundo Sócrates, a transmissão dos vídeos "é crime" e "os principais suspeitos são o procurador e o juiz" de instrução criminal da Operação Marquês.

A divulgação das imagens é crime e não há interesse público, é uma tentativa de perseguição política”, disse José Sócrates.

O ex-primeiro ministro apareceu sozinho para o encontro com os jornalistas, começando por ler uma declaração a dizer que as inquirições judiciais "estão no mercado" e que "a dignidade das pessoas é objeto de negócio e artigo de contrabando", a propósito das recentes reportagens televisivas nas quais foram passados vários dos seus interrogatórios perante o procurador do Ministério Público, Rosário Teixeira.

Para José Sócrates, "o crime cometido" tem "a cumplicidade das próprias autoridades", apontando o dedo ao principal procurador do processo e ao juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal Carlos Alexandre, sem, contudo, dizer o nome de ambos.

Os principais suspeitos da prática dos crimes de violação do segredo de justiça são o juiz e o procurador: por ação ou negligência eles são os autores morais dessas e das demais violações da lei".

Contudo, refere o ex-governante, os programas expuseram "a injustiça da prisão, a vacuidade de todo o processo e a ausência de factos e provas capazes de sustentar as graves imputações".

Questionado se vai pedir abertura de instrução, cujo prazo termina a 03 de setembro, Sócrates referiu que ainda nada está decidido porque há recursos por decidir.

O Ministério Público instaurou um inquérito para investigar a divulgação dos vídeos dos interrogatórios da 'Operação Marquês', considerando que a “divulgação destes registos está proibida”.

A estação de televisão SIC e a CMTV divulgaram nos últimos dias gravações dos interrogatórios ao ex-primeiro-ministro e outras testemunhas no processo, bem como uma longa reportagem sobre os meandros do escândalo político e económico que abalou o país.

O processo tem 28 arguidos, entre os quais o ex-primeiro-ministro, acusados de vários crimes económico-financeiros, nomeadamente corrupção e branqueamento de capitais.

José Sócrates, que chegou a estar preso preventivamente durante 10 meses e depois em prisão domiciliária, está acusado de três crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, 16 de branqueamento de capitais, nove de falsificação de documentos e três de fraude fiscal qualificada.

A acusação sustenta que Sócrates recebeu cerca de 34 milhões de euros, entre 2006 e 2015, a troco de favorecer o ex-banqueiro Ricardo Salgado no Grupo Espírito Santos (GES) e na PT, bem como por garantir a concessão de financiamento da Caixa Geral de Depósitos ao empreendimento Vale do Lobo, no Algarve, e por favorecer negócios do Grupo Lena.

Além de Sócrates, estão acusados o empresário Carlos Santos Silva, amigo de longa data e alegado `testa de ferro´ do antigo líder do PS, o ex-presidente do BES Ricardo Salgado, os antigos administradores da PT Henrique Granadeiro e Zeinal Bava e o ex-ministro e antigo administrador da CGD Armando Vara, entre outros.