A defesa de José Sócrates já sabe por que não teve acesso a 80 páginas dos 56 volumes dos autos do processo que envolve o ex-primeiro-ministro na denominada "Operação Marquês".
 
Em entrevista nesta terça-feira, no Jornal da Uma da TVI, o advogado João Araújo disse que o Ministério Público “fundamentou” a ausência das “80 e tal folhas” por entender que se trata de “matéria que pode ficar em segredo” por “se tratarem de diligências que ainda não foram efetuadas”.

A defesa do antigo governante, que já se encontra em liberdade, não aceita "uma coisa que não conhece" e voltou a acusar o Ministério Público (MP) de esgotar o prazo de inquérito sem que tenha acusado José Sócrates ou arquivado o processo.

"Estou numa situação complicada, porque o prazo de inquérito esgotou-se ontem [segunda-feira] à meia-noite. O MP sabia desse prazo e só não o cumpriu como não disse água vai. No final do inquérito, o MP tem de acusar ou arquivar e não fez nem uma coisa nem outra. E esses prazos vigoram para qualquer inquérito, esteja o arguido preso ou não. O prazo de inquérito foi esticadinho até aos limites do executável", criticou João Araújo, acrescentando que "havia outras coisas que [o MP] podia fazer" mas que não lhe compete a si "fazê-lo".

Sobre o passo seguinte a dar pela defesa, João Araújo disse apenas que vai "insistir no levantamento de todas as medidas de coação e mais um par de coisas" que ainda não pode dizer.

«Não me quero pronunciar em prestações suaves", afirmou o advogado, que poderá pronunciar-se depois de ler todos os volumes do processo.

Na última sexta-feira, o juiz Carlos Alexandre decidiu libertar José Sócrates e Carlos Santos Silva, sujeitos a Termos de Identidade e Residência, a medida de coação mais leve e obrigatória para qualquer arguido. Ficaram ainda impedidos de contactar entre si. 

No mesmo dia o Ministério Público confirmou, através de comunicado, que iria permitir o acesso à investigação, mas que iria recorrer para o Tribunal Constitucional, depois de o Tribunal da Relação de Lisboa ter indeferido o seu pedido de nulidade do acórdão que determina o fim do segredo de justiça interna.  

Com o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa a determinar o levantamento do segredo de justiça interno e os arguidos passarem a ter acesso ao processo, deixou de estar em causa o perigo de perturbação de inquérito, o principal motivo que levou à prisão preventiva dos arguidos do Processo Marquês.

O ex-primeiro-ministro foi detido a 21 de novembro de 2014, no aeroporto de Lisboa, indiciado pelos crimes de fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e corrupção passiva para ato ilícito e esteve preso preventivamente no Estabelecimento Prisional de Évora mais de nove meses,  tendo esta medida de coação sido alterada para prisão domiciliária, com vigilância policial, a 4 de setembro. Foi libertado a 16 de outubro.